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Onde quiser falar com ele

By Rebecka Cerqueira

Last update 2 weeks ago2 Min.

  Não podia dizer que religião era algo que apreciasse. Não ia mentir. Ele não gostava da ideia de haver um intermediário, de haver alguém maior que pudesse conversar com Deus e levar suas mensagens pra ele. Era homem de não mandar recado. Se tivesse de resolver, resolvido estava já. Não de esperar. 
  Achavam ele bruto, mas Deus achava ele bom. Bom como é bom um cacto: é bonito, é forte, se sustenta, aguenta. Bom porque é necessário e ele sabia dentro dele sem ninguém dizer que tudo era necessário para Deus. Ele também devia ser.
  Não gostava então da ideia de precisar de alguém para dizer o que precisava dizer a Deus. E não gostava da ideia de chamar Ele de Ele. Era Deus e pronto. Se não for, é com e minúsculo. Por nada demais, por igualdade, porque acreditava que ele, Deus, em toda sua sabedoria, não se encontraria numa situação superior à de ninguém. Era como tudo que ele considerasse bom, necessário e belo. 
  Então ele mesmo ia dizendo suas palavras, como quem conversa com um amigo, quem conta uma confidência, quem faz um elogio, como quem reclama de um defeito, dá um conselho, pede outro e então brinda. Brindava com o que tinha, porque, como já tinha dito tudo para Deus era necessário. O brinde, seja com água, seja com copo vazio, cheio de vento. Brinde era brinde. Porque no vazio também está Deus. E isso para ele bastava.