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Dar preço é, por definição, subjetivo. No caso de discos, o valor passa por estado, raridade e outros fatores.

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Quanto vale um disco?


Por Saulo Pereira Guimarães

"My love", começa o texto.

"Hello", saúda.

"Kisses, very well, Hamburg, ok, hot dog, very good, ice cream, so long", acrescenta em um inglês tão impecável quanto sem sentido.

No fim, um "congratulations" antes do nome de quem presenteia: "Fausto 10/IX/76".

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A dedicatória está na contra-capa de um disco que comprei sábado, na Barão de Itapetininga — uma rua que vai da Praça da República ao Theatro Municipal e que tem, lá no fim, uma galeria com lojas que vendem vinil. Outro dia, uma amiga perguntou à Ana Rita o que me dar de presente e ela respondeu: "chocolate ou vinil". "Ela vai ficar achando que eu sou o Ed Motta", comentei depois com Ana Rita. Mas a indicação foi boa. Eu gosto mesmo das duas coisas. E de vinil.

Sem nada para fazer, comecei a reparar nos preços. Um compacto experimental de 1981 da Jocy de Oliveira — uma música de vanguarda que tocou sob regência de Stravinski, entre outras proezas — estava por R$ 900. Outro, do show de Caetano com Os Mutantes, gravado em 1968 na Boate Sucata, por R$ 1250. É o único dele com a banda. Em um dos shows da temporada, uma mulher subiu no palco, deu um amasso no marido e, de volta à plateia, ficou aos berros chamando Gil (que também participava) de "bicha". Isso para não falar em Marcianita, uma canção com o maravilhoso verso "quero uma mina de Marte que seja sincera".

E não precisa ser tão velho para ser caro. A edição original do Sobrevivendo no Inferno, gravado em 1997 pelos Racionais, estava R$ 1275.

Isso porque, no mundo dos vinis, alguns ganham fama de Santo Graal. É o caso do Transa, que Caetano gravou em Londres em 1971 e eu vi por R$ 560. A capa é uma escultura neoconcreta e Macalé, que toca em várias faixas, brigou com Caetano porque o disco não tem ficha técnica. Sabe essas coisas? Ou do "disco do tênis", que o Lô Borges gravou às pressas após o boom do Clube da Esquina em 1972 por pressão da gravadora e já influenciou até o Artic Monkeys: R$ 2995. E os três Racionais do Tim Maia, que ele fez ao entrar para uma seita, se arrependeu depois e são para muitos, o seu auge criativo? Vi um deles por R$ 2595.

Por coincidência, tenho o disco mais caro que vi à venda. Previsão do Tempo, de Marcos Valle — uma salada que mistura Bossa Nova, samba e MPB com jazz, soul e funk. A versão que eu tenho é uma reedição da Polysom. Mas o original, de 1973 mesmo, estava — pasme — por R$ 3495.

Um disco desse vale um mês de aluguel. Pelo certo mesmo, quem fosse dono deveria declarar no imposto de renda.

E o pior: dá para ouvir de graça na internet.

Galeria Nova Barão: o paraíso dos amantes dos discos de vinil
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Dar preço é, por definição, subjetivo. No caso de discos, o valor passa por estado, raridade e outros fatores. Agora, quanto pagar vai de cada um. Eu mesmo dei R$ 25 no Vem Quem Tem, lançado em 1975 pelo João Nogueira. Mas não nego que tê-lo visto a R$ 100 no mesmo dia contribuiu para que eu fechasse negócio.

Nada como encontrar o que não se procura. Seja uma nota de 50 no bolso, o amor da sua vida numa festa de rua ou sentido para a existência no capitalismo.

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Salve, meu povo! A última edição, sobre o Braseiro Labuta, encheu de água a boca de muita gente. De Portugal, a Carolina Barbosa mandou avisar que gostou. As cariocas Liv Brandão e Mariah Pereira curtiram, assim como Luanne Batista e Ana Rita (ela mesmo), diretamente de Brasília.

E você, o que achou? Aguardamos suas impressões via Twitter (onde postaremos nos próximos dias fotos e links de discos citados hoje) ou por e-mail.

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Até quinta, às 8h30, aqui na Eixo.