Bicho
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Em 1941, um decreto transformou em contravenção a realização ou exploração do Jogo do Bicho. Mas e se o jogo tivesse sido legalizado?

Eixo
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E se o Jogo do Bicho tivesse sido legalizado em 1941?


"Ontem, aniversário da revolução, o presidente promulgou a Lei das Contravenções Penais", avisou a Folha em 05 de outubro de 1941. A revolução era a de 1930 e a lei, um apanhado de maus hábitos que não chegavam a ser crimes, mas passariam a ser punidos com multa e cadeia.

Estava proibido mendigar, apresentar-se em estado de embriaguez de modo que causasse escândalo e entregar-se à ociosidade sendo válido para trabalho.

Estava proibido também explorar ou realizar o Jogo do Bicho, sendo prevista pena de multa e até um ano de prisão.

Mas e se o jogo tivesse sido legalizado, em vez de proibido?

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A história do Bicho é do tempo do Onça. Em 1892, o Barão de Drummond criou os sorteios dos animais estampados nos bilhetes para movimentar o primeiro zoológico do país. O povo gostou, a coisa cresceu e, em 1899, uma lei estabeleceu 3 meses de xadrez para quem se envolvesse com loterias ilegais.

A polícia nunca perseguiu o jogo com afinco por muito tempo. Em 1911, prendeu mil pessoas por envolvimento. Em 1912, uns 120. Cinco anos depois, fechou 868 casas de apostas numa tacada. Em 1932, o termo "Jogo do Bicho" estreou na legislação, em um decreto que previa prisão inafiançável para a contravenção.

Nos anos 1940, era um jogo de pobres organizado por remediados, como Aniceto Moscoso -- um espanhol dono de farmácia que virou nome de estádio em Madureira.

Havia, porém, outro jogo indo de vento em popa no Brasil. Liberados em 1920, os cassinos até passaram sufoco no começo, mas viram a sorte mudar com Vargas. Ele estimulou a construção de novos espaços e, na década de 1940, o país chegou a ter mais de 70 empreendimentos do tipo.

Era um passeio de bacana. A entrada era 30 vezes o valor de um jornal. No Cassino da Urca, o sujeito que fosse de táxi tinha a corrida paga pela casa e ainda ganhava uma ficha para jogar.

Se os donos de cassinos não fossem tão elitistas, teriam visto o bom negócio que era o Bicho e o legalizado em 1941.

Caso isso tivesse acontecido, o jogo não teria sido organizado pelos bicheiros que começavam a se articular. Foi só nesse período, por exemplo, que o Bicho criou um sorteio único na cidade do Rio, o Paratodos. A corrupção de agentes públicos e os exércitos privados para garantir pontos também perderiam sentido.

Só isso já evitaria a morte de muitos cariocas nas décadas seguintes.

Outra coisa que não aconteceria seriam as tentativas de legitimação por meio do futebol e do samba. É nos anos 1940 que Natal começa a se aproximar da Portela em Madureira e cria esse modelo, vivo até hoje.

Vargas cai em 1945. Em dezembro daquele ano, Dutra vence Eduardo Gomes, que prometia acabar com os cassinos. Ele assume em janeiro e, em abril, baixa o decreto que encerra o jogo no país.

Todo mundo achou que o Bicho também fosse dançar. Mas, em pleno 2024, a contravenção segue forte, com resultados na internet e um rastro de sangue de décadas na Cidade Maravilhosa.

Às vezes, o pequeno problema de hoje pode ser o grande problema de amanhã.

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E se as coisas tivessem acontecido de forma diferente?

Ao longo de janeiro, a Eixo imagina em quatro textos como seria o presente se o passado tivesse sido outro. A série E se? é um exercício de hipóteses baseado em fatos e temperado por imaginação.


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