Carandiru
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Em 2/10/1992, uma ação da PM durante uma rebelião no Carandiru resultou em um massacre com 111 mortos. Mas e se isso não tivesse acontecido?

Eixo
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E se o Massacre do Carandiru não tivesse acontecido?


Três maços de cigarro. Parece até mentira, mas tudo indica que esse foi o motivo. Em 2 de outubro de 1992, Antônio Nascimento, o Barba, se estranhou com Luis Azevedo, o Coelho, a quem vendera maconha e que lhe devia o pagamento havia dias.

A briga no terceiro andar do Pavilhão 9 não demorou a se tornar uma confusão generalizada. Barba era da Zona Oeste. Coelho, da Leste. E os dois grupos não se bicavam. Os carcereiros até tentaram conter, mas não deu. A PM foi chamada e, às 16h30, invadiu o local.

A ação toda durou uns 30 minutos. Os policiais atiravam no escuro, já que o prédio estava sem luz. Quem tentava se esconder era morto antes de provar que estava desarmado. No fim, o estrago estava feito: 111 detentos mortos e 87 feridos. Nenhum PM baleado. Assim foi o Massacre do Carandiru.

Mas e se não tivesse sido?

Vista da Casa de Detenção, no Carandiru (Moretovizky/Wikimedia)
Vista da Casa de Detenção, no Carandiru (Moretovizky/Wikimedia)

Havia vários motivos para não ser. À época, a Casa de Detenção tinha capacidade para 3 mil pessoas, mas abrigava mais de 7 mil.

Diante desse barril de pólvora, uma cadeia de comando permitiu a carnificina. Fleury (PMDB), o governador, estava em Sorocaba. A decisão de invadir foi validada pelo secretário de segurança, Pedro Franco de Campos — mas partiu do coronel Ubiratan Guimarães, comandante da PM.

Às 15h, os dois se falaram por rádio. O militar informou que a situação no local estava "insustentável". O secretário respondeu que ele tinha "autorização para entrar", sem pensar que a PM portava armamento letal e não balas de borracha. Esse detalhe teria feito toda a diferença.

Havia, pelo menos, mais um motivo para outro desfecho. No domingo, dia 3, aconteceriam eleições municipais. Uma matança poderia atrapalhar os planos do PMDB no estado. Isso até foi lembrado na conversa entre Campos e Guimarães. Mas a solução foi divulgar os números da chacina depois do resultado do pleito.

Se as 111 mortes não tivessem sido como foram, talvez alguns presos não tivessem se reunido em 1993 na Casa de Custódia de Taubaté para criar um grupo que combatesse os maus tratos nas prisões. Esse grupo transbordou para fora dos presídios, unificou o crime em São Paulo e passou a ser conhecido como PCC.

Com o massacre, Campos deu lugar a um novo secretário: Michel Temer. Ele não puniu ninguém e sua atuação na pasta o ajudou a construir a imagem de conciliador. Essa imagem colaborou para que ele chegasse a presidência em 2016. Sem a tragédia, talvez a história tivesse sido diferente.

Nos anos seguintes, o Carandiru inspirou de Sepultura a Caetano. O filme sobre o episódio está entre as 30 maiores bilheterias do cinema nacional. Com mais de sete minutos, uma canção sobre a catástrofe alçou ao estrelato um grupo de rap hoje nacionalmente conhecido: os Racionais MCs.

Coube ao Carandiru relembrar ao Brasil quais eram os alvos preferenciais da sua violência, após a agressividade indiscriminada da ditadura. Sendo o país como é, é improvável que as coisas tivessem sido muito diferentes sem o massacre. Mas ele acelerou um processo que poderia ter sido mais lento.


E se as coisas tivessem acontecido de forma diferente?

Ao longo de janeiro, a Eixo imagina em quatro textos como seria o presente se o passado tivesse sido outro. A série E se? é um exercício de hipóteses baseado em fatos e temperado por imaginação.


Na semana que vem

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Em 3 de outubro de 1941, um decreto de Getúlio Vargas transformou em contravenção a realização ou exploração do Jogo do Bicho. A proibição foi reforçada por outro decreto de Dutra em 1946 e se mantém até hoje. Mas e se, em vez de proibido, o jogo tivesse sido legalizado em 1941?


E aí, curtiu? Mande um alô!

Salve, meu povo! E a história sobre a Barra, hein?

Ana Rita amou e Yvna Souza não conhecia. "Fiquei curiosa pra ler mais sobre e ouvir diretamente de quem participou", disse. Sobre momentos que quase mudam a vida, a Eliete Pereira lembrou de quando optou por só dar aulas na rede municipal do Rio. "Tivesse optado pelo ensino médio, estaria arrependida, porque o descaso com ensino sempre foi pior no estado", contou.

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Até quinta, às 8h30, aqui na Eixo.