O avesso da pele
0
0

O avesso da pele

Alguém pode decidir que um livro não é digno de ser lido por trazer algo da realidade que não é confortável de lidar? Não.

Eixo
4 min
0
0
Email image

Por que a confusão envolvendo "O avesso da pele" é racista?


Eu estava esperando Ana Rita terminar na manicure. Decidi ir à livraria do 2º andar com um objetivo claro: comprar "O avesso da pele". Era uma vontade que eu já nutria havia dias, por toda a polêmica que envolveu o livro, que eu tinha visto por R$ 79 no dia anterior em Botafogo.

Estava R$ 51 no Shopping Tijuca. Comprei no ato. E foi aí que o inesperado aconteceu.

Quando desci da escada rolante no 1º piso, um adolescente branco me deu três cutucadas no braço e falou algo incompreensível. Demorei para entender que ele dizia "O avesso da pele?" ao ver o livro dentro do saco plástico. Quando entendi, falei "sim" e ele respondeu: "muito bom esse livro".

'O Avesso da Pele' ganhou o Prêmio Jabuti em 2021
'O Avesso da Pele' ganhou o Prêmio Jabuti em 2021

Eu não me lembro de ter sido elogiado por um estranho por ter comprado um livro em qualquer outra ocasião da minha vida.

Escrito pelo carioca Jeferson Tenório, "O avesso da pele" é uma narrativa na qual um homem recorda as memórias do pai que acabou de morrer em Porto Alegre. Ele costura isso com impressões, dúvidas e socos no estômago sobre a condição de ser negro no Brasil. E, talvez por esse último ponto, o livro teve seu recolhimento determinado das escolas públicas de ensino médio de Goiás, Paraná e Mato Grosso do Sul.

Puxo pela memória casos parecidos. "Capitães de Areia", de Jorge Amado, teve 800 exemplares queimados em frente ao Elevador Lacerda em novembro de 1937 pelo Estado Novo por "propaganda do credo vermelho". Em 1976, "Feliz Ano Novo", do Rubem Fonseca, foi proibido um ano após ser lançado por "atentar contra a moral e os bons costumes". Dois anos antes, "Zero", de Ignácio de Loyola Brandão, saía na Itália -- porque nenhuma editora daqui quis publicar. A obra também foi censurada em 1976 pelo mesmo motivo: "atentatório à moral e aos bons costumes".

No fim, é sempre a mesma história: alguém decide que um livro não é digno de ser lido por trazer algo da realidade que não é confortável de lidar.

No caso de "O avesso da pele", o problema oficialmente foram as cenas de sexo. No começo do livro, o narrador descreve alguns namoros do pai antes de conhecer sua mãe. Um deles é com uma mulher branca e o autor explica como a relação dos dois era permeada pela questão racial, inclusive no âmbito sexual. E isso foi visto como ofensivo (e não como uma sequela da escravidão).

Diante dos ataques, Jeferson foi direto ao ponto: o livro não é sobre sexo, mas sobre a violência do racismo. E discutir a obra a partir de outros aspectos é fugir dessa discussão principal. Ou seja, racismo também (ou covardia, se preferir).

Quem hoje censura o livro deveria estar de olho nas passagens que falam sobre não ser violento e outras obrigações implícitas da condição de ser um homem negro, sobre a sexualização exagerada da mulher negra e, principalmente, sobre todas as consequências psicológicas, sociais e de outros tipos dessas e de outras micro-agressões para todos.

Isso sim é para lá de obsceno, impacta a vida de milhões de pessoas todos os dias e precisa deixar de existir o quanto antes.

Compartilhar conteúdo

E aí, curtiu? Mande um alô!

Salve, meu povo! Nossa edição sobre Leila deve ter tido like até de corintiano. A Amanda Lima amou, mas achou que a presidente do Palmeiras não fica bem naquele tom de verde (no que concordamos). Já Gabi Ribeiro considerou a posição de Leila sobre Daniel Alves e Robinho "um mini band-aid na enorme ferida que a informação sobre o valor pago por um e os áudios ditos por outro causaram".

E você, o que achou? Aguardamos impressões via Twitter ou por e-mail.

Até quinta, às 8h30, aqui na Eixo.