São Jorge
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São Jorge

É uma festa em que 2 tipos de fé se encontram. Uma é a fé sofrida dos cristãos. A outra é a fé alegre dos iorubás. E a graça é essas 2 coisas caberem, sem brigar, em um mesmo dia e em uma mesma cidade

Eixo
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Como é o feriado de São Jorge no Rio?


Por Saulo Pereira Guimarães

"Todo ano?", perguntei. "Todo ano", meu primo me confirmou.

Não quis detalhes porque promessa, às vezes, não se conta. Mas o fato é que, na próxima terça, meu primo e vários outros primos meus considerando que, na genealogia suburbana, assim pode se identificar qualquer pessoa cuja mãe ou pai tenha a mim se apresentado ou por mim sido chamado de tia ou tio em algum momento irão amanhecer na rua Clarimundo de Melo, em Quintino, em homenagem a São Jorge.

Amanhecer porque essa é a tradição. A Alvorada como chama minha mãe tem direito a fogos e Jorge Benjor cantando na missa. Na audiência, de vermelho, estarão médicos, golpistas, advogados, cafetões, engenheiros, apontadores de jogo do bicho, influencers, camelôs, militares, milicianos e muitos outros ali, todos iguais em honra e glória ao santo guerreiro.

Está naquele rol das coisas mais cariocas que existem e que pouca gente de fora entende, porque é confuso mesmo. São Jorge é padroeiro dos policiais e dos bandidos ao mesmo tempo, dos pretos e dos imigrantes portugueses que criaram o Rio como conhecemos.

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Mas como nada nessa história é simples, nosso São Jorge não se contentou em ser só santo: virou Ogum também. No candomblé, é o orixá da guerra e do ferro pai de quem não desiste porque sabe que a vitória demora, mas vem. A cerveja está entre suas oferendas favoritas e, como quem bebe precisa comer e nem ficaria bem deixar a divindade bebendo sozinha, surgiu uma deliciosa tradição: a feijoada de São Jorge.

Quem percorrer as ruas de Madureira, de Padre Miguel, da Ilha, da Pavuna e até da insuspeita Tijuca na terça certamente vai esbarrar com ela, farta como pede a ocasião e, muitas vezes, servida de graça por devotos agradecidos enquanto carreatas passam buzinando e tocando Ogum, do Zeca Pagodinho, no último volume.

É o nosso Bonfim, nosso 2 de fevereiro.

É uma festa em que dois tipos de fé diferentes se encontram e saúdam. Uma é a fé sofrida dos cristãos, que levantam cedo para honrar um santo que morreu degolado e mantém a cara triste mesmo em cima do cavalo de onde mata um dragão. A outra é a fé alegre dos iorubás, que bebem para benzer, comem para louvar e cantam para exaltar. A graça é essas duas coisas caberem, sem que uma brigue com a outra, em um mesmo dia, em uma mesma promessa e em uma mesma cidade.

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Salve, meu povo! Tabata pode não liderar pesquisas, mas desperta paixões. Ana Paula Bimbati, Hysa Conrado, Ivan Ryngelblum, Liv Brandão e Tálisson Melo curtiram o story no Instagram -- onde, por mensagem, houve quem dissesse que vota nela (mas está em dúvida sobre a vitória), que não vota nela (e a considera propaganda enganosa) e até que ela estava parecendo uma senhorinha na foto.

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Até quinta, às 8h30, aqui na Eixo.