Trabalho
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O trabalho é uma das coisas que organiza a vida — só não pode ser a única. Porque seria injusto com a própria vida, que nos oferece tantas outras coisas.

Eixo
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Que lugar o trabalho deve ocupar em nossas vidas?


Por Saulo Pereira Guimarães

Quando eu mudei para São Paulo pela primeira vez, havia uma piada que dizia que, ao serem apresentadas, as pessoas no Rio se perguntavam "onde você mora?" — enquanto aqui, a pergunta era "com o que você trabalha?".

A piada joga com estereótipos. De um lado, a mania carioca — talvez herdada dos tempos do Império — de entender as pessoas a partir daquilo que elas já têm. Afinal, é mais interessante já nascer com algo do que ter de conquistar. Do outro, a irresistível curiosidade paulistana de medir a todos em função daquilo que eles podem vir a ter. Mais burguês, impossível.

Na piada, a graça vem do contraste entre as visões de mundo. No fim das contas, é tudo uma questão de grana. E grana, até outro dia, se ganhava basicamente com trabalho — não havia tantos traders assim dez anos atrás.

E, em São Paulo, se trabalha. Muito.

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Hoje, as perguntas perderam um pouco o sentido. O carioca, quase sempre, mora onde dá. O paulistano, muitas vezes, não consegue trabalho.

Completei esses dias 11 anos de labuta como jornalista. Não foram 11 anos ininterruptos — houve umas boas crises no meio — e nem integralmente dedicados a redações — frilei e dei uns nós em pingos d'água para fechar alguns meses. Mas valeu a pena.

Ana Rita acha graça quando eu digo que, ali pela sétima série, decidi que minha meta de vida era sobreviver do que conseguisse escrever. Eu sabia que seria difícil. E foi. Mas, graças a Deus, até aqui, temos conseguido.

O que eu só concluí por esses tempos é que não é sensato enxergar o trabalho como uma fonte sustentável de felicidade. Calma, eu explico.

Vamos partir do pressuposto que felicidade é a satisfação oriunda de um objetivo alcançado, ok? Se estivermos falando de um namoro, pode ser fazer o outro feliz. De uma relação entre mãe e filho, ver o outro crescer — para a mãe — ou retribuir o afeto recebido — para o filho.

Nos três exemplos, são ações que dependem só dos agentes envolvidos. Mas, na vida profissional, não é assim.

Você pode fazer tudo certo e dar tudo errado.

Você pode fazer tudo errado e dar tudo certo.

As coisas dependem tanto de você quanto das circunstâncias.

Não é um consórcio, é uma loteria.

Tudo isso não muda o fato de que investimos tempo para trabalhar com o que queremos, de que temos ambições profissionais e de que é totalmente válido nos sentirmos zeros à esquerda quando podemos trabalhar e não estamos trabalhando — embora essa sensação nem sempre seja justa com nós mesmos.

No nosso mundo, o trabalho é uma das coisas que organiza a vida — só não pode ser a única. Porque seria injusto com a própria vida, que nos oferece tantas outras coisas.

Sendo assim, tenho preferido encarar o trabalho como contingência. Eu tomo banho, escovo os dentes e trabalho. Trabalho acima de tudo para pagar as contas — mas também para, quando dá, realizar um ou outro sonho daquele garoto de 10 ou 20 anos atrás.

Que seja assim — e prazeroso — sempre que possível.

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Salve, meu povo! Nossa última edição não é a Madonna, mas fez quase o mesmo sucesso. Camila Maia desconhecia a história do estrogonofe. Dinorá Zanina adorou a "avaliação" e Eliete Pereira achou graça de eu dizer que o bairro é "uma Madureira com praia" — o que não retiro. A Weruska Goeking leu com minha voz e achou mais divertido.

No Instagram, foram 10 likes de pessoas de diferentes procedências.

E você, o que achou? Conte via Insta, Twitter ou e-mail.

Até quinta, às 8h30, aqui na Eixo.