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A bola é dela! Uma análise do filme "Being the Ricardos"

By Fabio Ribeiro

Last update Last week5 Min.

uma leitura sobre a busca por espaço em condições adversas
Criada e influenciada pelo avô, ainda jovem nutriu inclinações ideológicas que culminaram numa filiação ao partido comunista.
Duas décadas depois tornou-se a artista mais relevante de seu tempo, pioneira das sitcoms que moldaram o entretenimento televisivo.
No auge da carreira, sua audiência equivalia a quase metade da população americana. Causou impacto no comércio e nos padrões de consumos, tal qual as novelas brasileiras fazem, e, não bastasse, muito antes de se converter podcasts em conteúdos de YouTube, foi precursora em transpor o áudio do rádio para as imagens da TV.
Esteve sujeita a ataques públicos ao casar-se com um talentoso músico cubano em pleno auge da crise com o país caribenho, e, não satisfeita, transformou seu matrimônio em trabalho para simular o sonho de ter um lar e uma família onipresentes.
Em meio a tudo isso, conduziu negociações com executivos de emissoras, patrocinadores e com sua própria equipe de produção, sempre consciente de seu status nos negócios, dos inegociáveis artísticos de seus programas, do respeito incondicional pelo público e, naquilo que se revelou sua maior preocupação — quase obsessiva — , a manutenção de seu casamento, ao ponto de promover o trabalho do marido para além das capacidades e méritos dele.
Grande mestra e referência da comédia física, cujo humor nasce de gestos expansivos e expressões caricatas, teria sido um sucesso (ainda mais) estrondoso (e global) em época de TikTok, memes e virais.
Seu nome é Lucille Ball, ícone da cultura popular americana, cuja história foi parcialmente abordada no filme "Being the Ricardos", disponível na Amazon Prime.
O roteiro, centrado num recorte específico e restrito de tempo, aborda os bastidores semanais da gravação do seu programa em meio ao vazamento da notícia de que Lucille, já com a relevância descrita, seria comunista.
Desloque-se para o contexto da época, década de 50, em pleno macarthismo, onde posturas progressistas eram tidas como subversão e traição à pátria, o que se constituiu num período de caça e perseguição extrema a qualquer sinal de simpatia a este movimento, muito parecido com as supressões de liberdade ocorridas posteriormente nas ditaduras latinas.
Criou-se um enorme problema.
A rede CBS e os patrocinadores estavam sob pressão para investigar os rumores e cogitava-se, inclusive, uma rescisão de contrato de sua maior estrela, que, além de tudo, ousava querer colocar a sua gravidez da vida real como pauta do programa, sendo este um tabu intransponível para os costumes de então (tanto que não logrou sucesso).
Em paralelo, Lucille, parte alheia aos desdobramentos, parte segura de sua história e ideologia, concentrou-se no trabalho, tentando blindar sua equipe e casamento — este, já envolto em suspeitas de infidelidade de seu cônjuge — dos estilhaços do que hoje chamamos de “cultura do cancelamento”, e que, naquele momento, além da opinião pública, era apoiada pelo aparelho estatal.
O filme se desenrola sob a tensão dos eventos externos e o estresse de se manter um show em vias de acabar subitamente, o que afetava o ânimo e a dinâmica entre artistas e roteiristas, decididos a fazerem um programa impecável, como que para provar seu valor e evitar a contaminação da vida artística pela pública.
Há inúmeras camadas nesse longa-metragem, mas me ative aos desdobramentos artísticos. O cuidado na construção do programa, as idas e vindas dos textos, a obsessão com a cenografia, os testes sobre quais cenas provocariam mais risadas, a atenção com o uso das palavras e de como poderiam ser compreendidas, e a preocupação em não subestimar a inteligência do público.
Sobre este último ponto, um trecho é emblemático.
Na leitura de um roteiro, Lucy questiona se uma certa passagem não estaria forçada demais, desprovida de lógica, ao que um roteirista, de pronto, pergunta:
— Você acha que o público pode inferir que o personagem do seu marido é idiota? E ela: Não, acho que vão pensar que eles — o público — é que estão sendo tratados como tal.
Empatia máxima, cliente no centro e nos poros, envolvimento direto, pele sensível e no jogo.
Como esta situação, há inúmeras que retratam seu visceral envolvimento com todas as etapas e pormenores do trabalho, mesmo sub judice, brutalmente exposta na mídia e rapidamente desqualificada por conta de sua ilação comunista.
Há espaço, inclusive, para demonstrações de sororidade quando Lucy insiste com uma roteirista de seu time para que ela se posicione a estatura do seu talento, ao passo que ouve da mesma o conselho de libertar-se do estilo de comédia baseado na submissão ao marido. Um choque geracional que culmina com duas visões de mundo e de como as lutas por direitos iguais podem ser exercidas.
Lucille Ball é parte da primeira leva de artistas que escreveram o playbook do jogo do entretenimento, cujas linhas clássicas persistem até hoje, mesmo no formato digital.
No mais, teve de enfrentar quase sozinha, sem muita referência prévia ou apoio de pares, boa parte dos pontos que hoje ainda sobrevivem como entrave à promoção da diversidade e equidade de gênero.
Ao fazê-lo, sustentou-se pelo talento e influência, mas não apenas.
O preponderante foi a clareza de equilibrar intenção e ação, alimentando-as mutuamente, de forma constante e incansável.
“Being the Ricardos”, estrelado por Nicole Kidman e Javier Bardem, vale como releitura histórica, mas vale também, quiçá ainda mais, como inspiração.