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O piano, e outros instrumentos de teclas.

By Gesiel

Last update 2 months ago7 Min.

“A mãe das invenções é a necessidade”
No início do século XVIII, o italiano fabricante de cravos, Bartolomeo Cristofori(1655-1731), incomodado com a falta de dinâmica que os instrumentos de teclas existentes proporcionavam, se empenhou em resolver a questão. Mas é necessário entender o que faltava aos instrumentos de sua época para que pudesse ser corrigido. Para isso vamos entender um pouco sobre os precursores do piano e suas famílias, conforme a sua produção de som.
O conceito básico de instrumentos de teclado musical, e que causa o parentesco entre uma gama enorme de instrumentos musicais, é o conjunto de teclas que quando acionadas geram notas musicais e que, da esquerda para a direita, levam dos sons graves aos agudos. E embora essas teclas tenham, em sua maioria, cores brancas para as notas naturais e pretas para as notas cromáticas, nem sempre essa configuração foi assim, tanto para as cores das teclas, como para a quantidade das mesmas por oitava, pois a maioria dos teclados do século XV tinham apenas as sete notas naturais.
O primeiro instrumento de teclas documentado refere-se a um órgão hidráulico e data do século III a.C., e embora seja um instrumento de teclado, não se assemelha em nada aos instrumentos contemporâneos. Até o século XIV o órgão era o único instrumento de teclas e muitas vezes não tinha teclas, mas sim botões e alavancas. Devido ao seu tamanho era necessário mais de uma pessoa para operá-lo, sendo um o músico, outro o operador dos pedais que geravam o ar necessário para soprar os tubos, e muitas vezes um terceiro indivíduo para movimentar alavancas em um engenhoso mecanismo musical. Por este motivo o órgão faz parte da família dos “aerofones” e não deve ser confundido com os atuais órgãos eletrônicos, “eletrofones”, como os teclados eletrônicos, sintetizadores e pianos digitais.
O piano é na realidade um instrumento da família dos “cordofones”, um mix da harpa com o clavicórdio, instrumento cujo os primeiros registros aparecem, juntamente com o cravo, em meados do século XIV. Entre os instrumentos que têm a produção de som por meio de cordas há três subdivisões: os de cordas friccionadas, os de cordas beliscadas e os de cordas percutidas. Nestes dois últimos temos representantes com teclados.  
O funcionamento do clavicórdio se dá através da percussão de uma tangente, acionada ao se pressionar as teclas, contra um par de cordas para cada nota, cordas estas que são esticadas através de uma caixa de madeira.
Já seu contemporâneo mais popular, o cravo, embora muito semelhante, tem um mecanismo que o define como um instrumento de cordas beliscadas. De uma maneira bem simples, uma vez que não é nossa intenção explicar minuciosamente o seu funcionamento, o cravo possui uma peça chamada “saltador”, que ao ser acionado pelas teclas do instrumento, se eleva, e uma “lingueta”, que geralmente nos cravos modernos é feita de plástico, belisca as cordas gerando o som. Os cravos mais antigos têm as cores das teclas invertidas em relação aos teclados que conhecemos hoje.
Mas estes instrumentos apresentavam características que os músicos contemporâneos a eles definiam como uma falta essencial à interpretação das peças musicais. O primeiro não apresentava muita variação de volume, e o segundo falhava na sustentação do som.
Na busca da solução destes problemas, Cristofori observou que um outro instrumento de cordas, o saltério, se utilizava de uma caixa de ressonância para o som das cordas que eram percutidas por um martelo e que era facilmente controlado pelo executante quanto a intensidade e duração do som, faltava agora adaptá-lo a um conjunto de teclas.
A primeira descrição da inovação de Cristofori encontra-se em um inventário da família Médici, de Florença, início do século XVIII, e se tratava de um “cravo com martelos”, sendo descrito em detalhes em um jornal veneziano e denominado “gravicembalo col piano e forte” (cravo com piano e forte) de onde se origina o nome “pianoforte”e finalmente piano.
Cristofori criou um mecanismo de ação onde o martelo, após realizar a percussão nas cordas, rapidamente se recupera a posição de origem, deixando a corda ressoar, quando necessário. Esse movimento livre do martelo de ir e vir chama-se “escape”, e o mecanismo utilizado para cessar a vibração das cordas permitindo passagens mais rápidas entre a execução das notas sem que o som anterior atrapalhe causando um embaraço sonoro, chama-se “abafador”.
Embora o material mais comum utilizado em sua fabricação seja o feltro, outros materiais já foram empregados para a fabricação da cabeça do martelo, tais como a espuma de uretano, o papelão, a borracha, o couro e até mesmo a argila. E uma característica válida ao resultado sonoro da criação de Cristofori é a parede dupla na caixa de ressonância.
Com o passar do tempo observou-se que se as cordas para as notas mais graves fossem mais longas, à semelhança da harpa, o resultado sonoro seria melhor, e em 1830 já começavam a aparecer pianos de cauda com o desenho que conhecemos hoje, e com inovações que o aperfeiçoaram, uma vez que, até então, os pianos eram feitos totalmente em madeira, mas, à medida que se ampliavam o tamanho das cordas e as esticavam o instrumento sofria uma tensão que a madeira quase não suportava. Há estudos que indicam que a cada corda de um piano do século XVIII era aplicada uma tensão por volta de 11 Kg. Foi dada a largada então para a criação dos quadros de metais, sendo o primeiro a ser apresentado, pela “Steinway & Sons”, em 1855. Esta inovação possibilita nos dias de hoje que a tensão total das cordas do piano chegue, em média, a 18 toneladas, ou aproximadamente 77 Kg por corda. Um piano moderno, na configuração comum de 88 teclas, apresenta 230 cordas, sendo utilizadas para cada tecla três, duas ou uma corda, respectivamente do agudo para o grave. A espessura das teclas varia conforme a marca ou modelo do piano, mas sempre em torno de 22,5 mm. O material mais comum no fabrico das teclas é o marfim artificial sendo também disponibilizado no mercado, a um preço menos acessível, o marfim natural.  
Com todas estas mudanças o piano já estava muito além da capacidade de execução de dinâmica de seus instrumentos correlatos, mas ainda não satisfazia completamente os músicos, sendo necessários alguns ajustes para que o mesmo ficasse completo. Ao longo do século XIX foram acrescentados pedais, aos moldes dos sete pedais da harpa, chegando ao mais comum atualmente, três, embora ainda sejam encontrados e fabricados pianos com um ou dois pedais.
E o que se conquistou com uso destes pedais?
O pedal à direita do músico é o pedal de sustentação, ele libera o mecanismo abafador de todo o piano deixando que todas as cordas vibrem juntamente com as cordas que realmente foram percutidas, permitindo assim que o som se prolongue além do tempo específico do piano, favorecendo também, onde se faz necessário, passagens em ligato.
Nos primeiros anos do século XIX o piano já era bem popular e músicos profissionais ou amadores que não dispunham de espaço físico em suas residências, disputavam horários para a prática instrumental. Novamente para solucionar esta necessidade, começa a aparecer os pianos verticais e se tornam uma febre entre a classe média europeia que agora poderia coloca-lo em suas casas e exibi-lo como sinal de status social em qualquer espaço. A disposição das cordas, ao contrário do piano de cauda, é vertical, e os martelos percutem na direção do músico para o piano, enquanto no horizontal a percussão se dá de baixo para cima.
Devido essas características, o pedal central nos pianos verticais tem uma função distinta em relação ao piano horizontal, ou de cauda. Ao pressionar o pedal central um mecanismo aciona uma faixa de feltro, esticada entre as cordas e os martelos, reduzindo significativamente o volume de som. Já nos pianos de cauda esse pedal central, pedal sustenuto, à semelhança do pedal sustain, suspende o abafador, porém apenas para as cordas referentes às teclas acionadas concomitantemente ao pedal central, dando sustentação apenas a estas notas.
E por último o pedal abafador, ou una corda, recebendo estes nomes exatamente por sua função: abafar o som ao se percutir apenas uma corda por nota! O pedal à esquerda do músico também tem funcionamento diferente no piano vertical, ao ser acionado, um mecanismo aproxima os martelos da linha onde as cordas estão esticadas modificando consideravelmente o resultado do som. Esta função já havia sido apresentada no piano de Cristofori com o inconveniente de ser acionado manualmente sendo para isso necessário liberar uma das mãos para aciona-lo.
Tudo isso faz o piano ser considerado o instrumento musical mais completo que existe!  
REFERÊNCIAS:
Grove, George, ed.; A dictionary of music and musicians 1450-1889 (1900), 4 vol.