O problema de se chegar a "ôto-patamar"
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O problema de se chegar a "ôto-patamar"

Você com certeza já ouviu a frase: "É difícil vencer, mais é ainda mais se manter no topo". A afirmação pode servir para qualquer área da vida profissional. Seja para um médico recém-promovido à gerência de um hospital, para um advogado que c...

João Pedro Farah
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Você com certeza já ouviu a frase: "É difícil vencer, mas é ainda mais difícil se manter no topo". A afirmação pode servir para qualquer área da vida profissional. Seja para um médico recém-promovido à gerência de um hospital, para um advogado que conquistou um escritório repleto de clientes ou para jogadores vitoriosos.

O futebol, portanto, a máxima segue a linha de todas as profissões. Raros são os casos de equipes hegemônicas em anos consecutivos. Mais recentemente, no futebol brasileiro recordo-me de São Paulo (nos anos de 2005-06-07), Santos (2010-11), Corinthians (2011-12), Cruzeiro (2013-14), Flamengo (2019) e Palmeiras (20-21). 

Os torcedores - sedentos por mais títulos - idealizam a "tal da hegemonia", afinal é gostoso assistir aos jogos e ver a sua equipe desfilar em campo. O adepto rubro-negro, por exemplo, sentiu esse sabor na temporada de 2019. Os comandados do técnico português Jorge Jesus tiveram mais títulos do que derrotas. Foram incríveis 57 jogos, com 43 vitórias e somente quatro derrotas. Ao todo, cinco títulos, entre eles a Libertadores, Brasileiro e Carioca.

Os êxitos do "Mister", porém, causaram um efeito reverso: elevaram o sarrafo do Flamengo a "ôto-patamar", como definiu Bruno Henrique em entrevista após empate por 4 a 4 contra o Vasco da Gama no Brasileirão de 2019. Assim, no imaginário do torcedor rubro-negro, os tempos de glória se tornaram uma obrigação constante. O encantamento e as vitórias -  na maioria das vezes de forma avassaladora -  viraram uma cachaça. E no bom sentido, é claro.

No entanto, Jorge Jesus saiu. E desde então, passaram: Maurício de Souza (interino), Doménec Torrent, Rogério Ceni, Renato Gaúcho e, agora, Paulo Sousa. E nenhum conseguiu reestabelecer a hegemonia e o domínio no futebol brasileiro. Mas qual o motivo?

A temporada de 2019 se tornou um "case" de sucesso - não somente pelos títulos - mas pelo processo que levou o elenco, comissão técnica e diretoria, ao produto final. A convergência de fatores - dentro e fora de campo - sejam eles mentais, físicos e técnicos fizeram do Flamengo uma equipe praticamente imbatível. 

Como tudo na vida, o futebol é cíclico. E, por mais óbvio que pareça, o esporte é formado por seres humanos. O torcedor pode ficar irritado com os valores milionários recebidos mensalmente pelos atletas, pela excelente estrutura disponibilizada, mas... eles continuam sendo seres humanos. Com vaidades, irritações, medos, acomodações e uma série de emoções positivas e negativas.

Além disso, treinadores com outras filosofias  modelos de jogo distintos e personalidades diferentes alteram o funcionamento do time. O caso do Paulo Sousa, por exemplo, evidencia a mudança de postura e de jogo da equipe.

As prioridades da diretoria - seja Marcos Braz como vereador e Rodolfo Landim indicado à Petrobras - se distanciam do êxito. Um clube com receita de um bilhão de reais, seja ele qual for, precisa de profissionais dedicados 24 horas por dia. Como falei em cima, para um ano feliz, todos os fatores devem convergir. Todos os pensamentos devem se voltar para o clube. 

Ao torcedor rubro-negro, preciso dizer: calma. O Flamengo hoje é um time estruturado, com os profissionais mais gabaritados em todos os setores. O técnico pode até errar - como acredito que tem feito em alguns jogos - mas nem tudo é "terra arrasada" ou "ôto-patamar". No clube carioca da Gávea, sempre é "oito ou oitenta". Não vejo esse desastre todo, nem vejo uma equipe sólida. 

A reconstrução do rubro-negro, hoje, passa pela mudança de mentalidade e do entendimento do senso de proporção. Não se pode cobrar do time de 2022, em circustâncias e fatores completamente diferentes, os mesmos feitos de 2019. E também não se pode deixar os envolvidos se acomodarem. Se puder deixar um recado, é este: calma. O desespero - uma emoção do torcedor - não é condizente com o presente. E lembre-se: o futebol é cíclico. 

Quem sabe não teremos, ainda em 2022, um Flamengo em "um patamar diferente "...