Como os coelhos podem mudar a sua vida
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Como os coelhos podem mudar a sua vida

Thomas Austin era um rico latifundiário, nascido na Inglaterra, mas que se mudou para a Austrália quando jovem. A Austrália era uma terra recentemente colonizada, de tal forma que Thomas Austin herdou diversas terras arrendadas por seu ...

Danilo Reis
9 min
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Thomas Austin era um rico latifundiário, nascido na Inglaterra, mas que se mudou para a Austrália quando jovem. A Austrália era uma terra recentemente colonizada, de tal forma que Thomas Austin herdou diversas terras arrendadas por seu pai, que havia se mudado para ajudar a alavancar a agricultura e a pecuária locais e se desenvolveu economicamente criando ovelhas. Austin tinha um fascínio pela fauna do país em que residia e, em sua mansão de 30 mil hectares, ele se reunia com a Sociedade de Aclimatação de Victoria, que incentivava a introdução de espécies não nativas em vários lugares do mundo na esperança de que se adaptassem a um habitat que não o seu. Além de gostar de animais, Austin era fascinado por caçar e dar luxuosas festas de tiro em suas propriedades. Contudo, ele se recusava a usar qualquer espécie que havia se desenvolvido na Austrália nos últimos 70 anos. No início de dezembro de 1859, ele escreveu ao irmão, que residia na Inglaterra, pedindo que lhe enviasse 72 pássaros, 5 lebres e 24 coelhos selvagens ingleses. Com base nos princípios da sociedade que fazia parte, Austin soltou alguns poucos coelhos selvagens na natureza, animal este que na Inglaterra era parte da base da cadeia alimentar e, portanto, não conseguia se proliferar com facilidade, mas que acabavam por tornar os campos e regiões arbóreas mais encantadoras com a presença deste fofinho roedor. Thomas imaginou que desta forma, poderia tornar o país mais convidativo e, como na Inglaterra, a introdução da espécie não faria mal algum à sociedade. A gestação de um coelho leva em torno de 30 dias, nascendo em média 4 a 5 filhotes, podendo chegar a 9 em uma só ninhada. Após o nascimento, a fêmea leva 1 ano para chegar à fase adulta e poder reproduzir. Eles podem viver de 5 a 10 anos. Com a rápida multiplicação dos animais, Austin foi premiado com uma medalha da Sociedade de Aclimatação pela introdução bem-sucedida dos coelhos na Austrália, e isso se tornou o seu legado.

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Austin faleceu em 1871, porém seu legado se perpetuou. O crescimento desacelerado e exponencial dos coelhos fugiu do controle e eles começaram a devastar tudo. Por não existir uma grande quantidade de predadores, os coelhos se reproduziam constantemente e sua população crescia de forma desenfreada e escalonada. Os coelhos começaram a devastar plantações, fazendas e mais fazendas, uma atrás da outra, iam perdendo suas colheitas e plantações para o que estava se tornando a maior praga da região. Em consequência disto, as ovelhas, gados e animais nativos da região começaram a morrer por não ter o que comer. Anos mais tarde, uma crise alimentícia se alastrava pelo país e diversos fazendeiros chegaram a declarar falência. O governo ofereceu recompensas em dinheiro para qualquer pessoa que encontrasse uma solução para o problema. As sugestões iam de usar venenos, métodos de abate generalizado e inserção de gatos selvagem e furões no meio ambiente para serem usados como predadores. Tudo foi inútil. A população crescia de uma forma tão acelerada que era superior às diversas formas de controle. A cada um coelho morto, centenas surgiam do outro lado do país. Ao longo dos anos, a população de coelhos causou danos irrecuperáveis para a pecuária, a economia geral e o ecossistema da Austrália. Só a indústria agrícola perdeu bilhões de dólares com os efeitos diretos e indiretos da infestação. Espécies de árvores e plantas, como a eremófila, foram extintas. Em 1997, a Nova Zelândia resolveu disseminar um vírus, que só afeta coelhos e não outros animais, causador de uma doença hemorrágica a fim de tentar reduzir a população de coelhos. No início, o resultado de mostrou eficaz, porém, seguindo os ensinamentos de Charles Darwin, a população de coelhos, em 20 anos, evoluiu e passou a ser imune ao vírus. Em 2018, a Nova Zelândia disseminou uma nova estirpe do vírus, agora coreana, mas sabemos que a solução definitiva está longe de ser encontrada. No final das contas, os 24 pequenos coelhos de Thomas Austin, se tornaram mais de 200 milhões de animais e foram responsáveis por 150 anos de prejuízos ecológicos.

O efeito causa e consequência está atrelado a cada atitude em nossas vidas. O ser humano vive do imediatismo. Quando criança, aprendemos facilmente que se colocarmos a mão no fogo, queimaremos a mão. Que se estudarmos, tiraremos uma boa nota na prova. Toda causa, tem a sua consequência. Porém, o que esquecemos é o que vem depois da consequência. Essa consequência, observada por um outro ponto de vista, se torna uma causa que, consequentemente, trará uma nova consequência. Ou seja, uma causa inicial nunca terminará em uma única consequência. Ao colocarmos a nossa mão no fogo, queimaremos a mão. Ao queimarmos a mão, teremos diversas consequências provenientes dessa simples atitude. Teremos consequências fisiológicas como a dor, o aparecimento de bolhas, a vermelhidão da região queimada. Essas por sua vez gerarão novas consequências como a necessidade de um tratamento médico e, a depender do grau, uma internação. Teremos também consequências psicológicas, como o entendimento de que o fogo queima e, em um grau mais elevado, um medo ou fobia de fogo – também conhecida como pirofobia – e aversão a objetos com temperaturas elevadas. Em 1960, o matemático Edward Lorenz deu início à teoria matemática que se tornaria umas das mais importantes leis do universo: A Teoria do Caos. Lorenz, que também era meteorologista, ao fazer cálculos de pequenas previsões do tempo, alterou uma enésima casa decimal de seus cálculos, imaginando que este resultaria na mesma previsão. Acontece que o resultado mudou completamente. A partir daí, diversos cientistas se debruçaram pelo estudo e perceberam que até as mais simples atitudes são capazes de gerar as mais catastróficas consequências. A ideia central da teoria do caos é que uma pequenina mudança no início de um evento qualquer pode trazer consequências enormes e absolutamente desconhecidas no futuro. O simples fato de Thomas Austin ter escolhido trazer galinhas ao invés de coelhos selvagens poderia ter mudado a história de um país inteiro. Parece assustador, mas se olharmos os acontecimentos em nossas vidas, podemos ter uma ideia da magnitude desse fenômeno. Em 2015, me inscrevi para prestar concurso para Engenheiro civil da Marinha. Acabei chegando atrasado pois esqueci de colocar o despertador e não realizei a prova. Um colega meu, de mesmo nível intelectual que eu e que estudávamos juntos, me disse que a prova estava extremamente fácil e que ele não passou porque zerou a prova de inglês. De fato, meu diferencial para ele era que meu nível de inglês era muito mais avançado que o dele. Caso eu tivesse colocado o despertador, eu poderia ter passado na prova e ingressado na marinha e minha vida estaria completamente diferente de hoje. Eu não teria iniciado a Mega, não teria conhecido a maioria de vocês e as diversas pessoas que conheci por conta da Mega. Se em 6 anos as mudanças são drásticas, imagine em 60 anos. Essa série de consequências aleatórias que foram destinadas pelo simples fato de o despertador não ter sido ativado, é mais conhecida como efeito borboleta.

Agora faça a seguinte reflexão: se uma atitude corriqueira do dia-a-dia, como programar um despertador, pode alterar as consequências de diversas vidas, imagine o que uma ação racional pode fazer. Agora imagine que essa ação já se inicia com uma grande responsabilidade atrelada a ela. Essas ações acontecem diariamente em nossa rotina. Tomamos decisões a cada segundo. Sejam as mais irracionais como sentar numa cadeira, bem como as mais complexas, como decidir o futuro de nosso país nas urnas. Em todas essas ações, nunca enxergamos as consequências. Quando enxergamos, geralmente só conseguimos enxergar a primeira, ou no máximo a segunda cadeia de consequência. Como falei anteriormente, o ser humano é imediatista. Não conseguimos mensurar o quanto nossas ações podem interferir em diversas outras atividades. Quando um burocrata, seja ele um presidente ou um ditador, ou um grupo deles decide por congelar o preço da carne, para nós é uma decisão excelente, pois o preço da carne estava muito alto. Só enxergamos a primeira consequência: se o governo congelou o preço da carne, poderei comer carne. Porém, ao fazer isso, o açougue que vende a carne não consegue pagar suas contas e para de comprar as carnes do abatedouro. O abatedouro por não conseguir vender a carne, deixa de adquirir o gado dos fazendeiros. O fazendeiro, por não conseguir vender o gado, deixa de cria-lo. Logo, por sua consequência, faltará carne no mercado e você não poderá mais comer carne. Vivemos em um mundo globalizado e interligado. Veja que só relacionei uma cadeia de consequências, mas existem milhares de consequências em torno dessa atitude. Por faltar carne, a demanda por frango e peixe aumentará de forma desenfreada. Por não conseguir suprir essa demanda, o produto começa a ficar mais raro e consequentemente mais caro, até que o governo decide congelar o preço do frango e peixe também. Isso afeta o mercado internacional, importadores de outros países, populações de outros países que dependem desses importadores e assim por diante. Milton Friedman, economista norte-americano, uma vez disse o seguinte: "Um dos maiores erros é julgar as políticas e programas por suas intenções em vez de julgá-los por seus resultados". Muitas vezes vemos políticos e até pessoas comuns bem intencionados. Apresentam ideias que, à primeira vista, são boas. Mas o imediatismo sempre nos leva a observar somente a primeira peça da fila de dominós, em que as consequências são maravilhosas: “Que ótimo poder servir carne em minha casa” e “Que maravilhoso ter coelhos passeando por nossos campos” são facilmente ouvidas nessas primeiras fileiras. Precisamos fugir dessa ilusão imediatista e analisar não só as consequências de nossos atos – e de todos ao nosso redor, inclusive dos políticos –, como as consequências das consequências. Atitudes altruístas geralmente têm consequências iniciais maravilhosas, mas uma série devastadora. De boas intenções o inferno está cheio, já que ninguém se preocupa com a série de consequências das boas intenções. Essa série de consequências foi o que fez 24 coelhos quase destruirem uma economia de um país. Esteja atento às principais decisões de sua vida e de todos ao seu redor. Reflita quais consequências essas decisões podem desencadear. Cada causa gera uma série de consequências, não só para você, mas para o mundo. Se ficar no imediato, acabará criando coelhos.

Uma semana MEGA produtiva a todos! Vamos pra cima!