No excuses
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No excuses

As contrações aumentavam e a bolsa havia rompido. Em meio ao desespero, se dirigiu ao hospital mais próximo para enfim dar à luz ao bebê tão esperado. Após horas de trabalho de parto enfim, o médico, com algum esforço, conseguiu retirar o beb...

Danilo Reis
7 min
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As contrações aumentavam e a bolsa havia rompido. Em meio ao desespero, se dirigiu ao hospital mais próximo para enfim dar à luz ao bebê tão esperado. Após horas de trabalho de parto enfim, o médico, com algum esforço, conseguiu retirar o bebê. Porém, os olhares da equipe médica deixavam um clima tenso e estranho no ar. Ao receber o filho no colo, percebeu o motivo com espanto: a criança nascera com uma condição rara conhecida como Síndrome de Regressão Caudal, condição esta que impede a formação da parte inferior da coluna vertebral durante a gestação, fazendo com que a criança nascesse sem os membros inferiores e afeta 1 a cada 100 mil pessoas. Essa deformidade foi o grande fator para uma realidade que mudaria para sempre a vida daquela criança: o abandono. O garoto foi deixado à porta de um orfanato. Rejeitado também em diversos orfanatos, finalmente parou em um orfanato de Ohio. Durante toda sua infância, o garoto Zion – nome de registro que significa a terra prometida para os Judeus, o monte Sião, uma fortaleza próxima a Jerusalém e que significa segurança para a religião judaica – sofreu diversos tipos de preconceitos. Negro, abandonado, sem pernas e de aparência franzina, recebia os mais diversos olhares, do mais assustado ao mais hostil, e se acostumou a se virar sozinho em praticamente tudo. Sua vida começou a mudar quando começou a frequentar a escola.

Aos 7 anos, ingressou em sua nova escola, a Massillon Washington High School, e, na época, era forçado a usar próteses de pernas para que pudesse andar entre seus colegas. As próteses, além de machucá-lo, o faziam andar desengonçado: “Tentaram me fazer parecer com outros, mas eu só queria parecer comigo mesmo”. Os mesmos olhares que o atormentavam no orfanato, se intensificaram na escola. Zion não tinha amigos, sofria com diversas “brincadeiras” e bullying. Em nenhum momento ele fazia ideia do que se tratava a vida. Até que um dia conheceu o Wrestling. O Wrestling, conhecida no Brasil como luta olímpica, é um esporte o qual dois lutadores se enfrentam com o objetivo de derrubar e imobilizar o seu adversário, usando somente a força de seu corpo. Essa modalidade de luta agarrada é considerada uma das mais antigas da humanidade, tendo registros datados em 3.000AC no Egito e Babilônia. "Comecei a lutar na segunda série. Quando eu era muito pequeno, nas primeiras competições, não sabia o que fazer, nem meu oponente. Algumas crianças estavam com medo de lutar comigo — eu estava com medo de lutar com elas. Eu não sabia o que estava fazendo", disse Zion. Seu técnico, Gil Donahue, precisou desenvolver um estilo de luta para que Zion pudesse competir com os adversários, pois sua maior desvantagem era a que ele iniciava a luta estando no chão. Gil e Zion adaptaram o estilo por tentativa e erro, até que passaram a usar a desvantagem de Zion como estratégia. O fato de Zion andar com suas mãos acabou se tornando uma grande vantagem, pois ele tinha muito mais força que seus adversários.

Zion começou a competir de igual pra igual com lutadores e as vitórias começaram a aparecer. “Comecei a pensar na faculdade e, por isso, comecei a treinar de seis a sete dias por semana”, diz ele. “Eu trabalhei com muita gente boa e passei a ganhar”. E a notícia dos talentos atléticos de Clark logo se espalhou pelo mundo do wrestling. “As pessoas começaram a reconhecer o meu nome e que eu era uma força”, diz ele. No final de sua carreira no ensino médio, ele compilou um excelente cartel de 33 vitórias e 15 derrotas em Massillon. Ele, juntamente com seu treinador, desenvolveu uma filosofia de vida que Zion levaria para sua vida, chamada: No excuses (Sem desculpas), frase a qual tem tatuada em suas costas. “Os obstáculos que enfrento no Wrestling me preparam para a vida cotidiana. O Wrestling me ensina paciência e persistência”, disse Clark. Sua filosofia surgiu durante seu último ano no colegial. Na semifinal da competição estadual, o seu oponente saltou sobre ele e acabou atingindo sua cabeça com o rosto de Zion. “Eu levei um duro golpe no rosto”, explica ele. “Meu nariz estava sangrando, meu olho estava cortado. Eu disse ao meu treinador: “Eu não posso fazer isso”. E o treinador Donahue disse: “você chegou até aqui, você tem que continuar fazendo o seu trabalho. Não me dê desculpas”. Então “Voltei para o tatame e, quando ele pulou em cima de mim novamente, peguei-o no ar e o coloquei no chão”, continua Clark. Zion virou o jogo, venceu a luta – uma das mais memoráveis de sua carreira no ensino médio – e terminou a competição em segundo lugar. Zion hoje faz faculdade de Administração de Negócios, participa de competições de crossfit, faz natação, anda de skate, toca bateria, teclado e ainda disputa provas de 100m e 400m em cadeira de rodas. "Meus sonhos e ambições? Um dia, fazer parte da equipe das Olimpíadas e ser um dos melhores lutadores de estilo livre do mundo", afirmou.

A sociedade atual enfrenta diariamente casos de depressão, muitas vezes decorrentes de baixa autoestima, uma falta de aceitação de sua própria realidade, agravada pelo fenômeno das redes sociais, local onde só se expõem as “maravilhas da vida” e “prova” que a grama do vizinho é sempre mais verde. Esse outdoor do sucesso alheio nos coloca em constante comparação com a vida dos outros e causa uma grande distorção de realidade. Passamos a achar que nossa vida é injusta e que somos desprivilegiados. Sensações estas que são prato cheio para crises de pânico, ansiedade e depressão. O nosso pensamento é capaz de coisas incríveis, sejam elas benéficas ou maléficas. Se usada de forma adequada, nossa mente é capaz de superar as maiores deficiências de nosso corpo. É normal ser diferente, afinal, ninguém é igual. Todos temos nossas individualidades. Alguns são mais atléticos, outros mais sagazes, alguns mais comunicativos e outros mais criativos. Da mesma forma, temos também nossas deficiências. Alguns tem dificuldades com números, outros com leitura, alguns com até baixa cognição, outros introspectivos e Zion não tem pernas. Nenhum desses fatores é responsável pelo seu insucesso. Pelo contrário, são esses fatores que o tornam individuais e que devem ser trabalhados para que passem de fraquezas para forças. De deficiências para grandes habilidades. Ou até mesmo, que você seja capaz de suprir essa deficiência com seus pontos fortes. Maximize-os. Foque em seus próprios resultados e deixe o sucesso dos outros para eles. É com exemplos como o de Zion que vemos o quanto somos privilegiados. O quanto nossos problemas são tão pequenos e nossas fraquezas tão insignificantes perto de nossas qualidades. O mundo é repleto de exemplos assim. Pessoas que perderam o movimento das pernas, que passaram por tragédias quase fatais e traumas que seriam capazes de destruir a cabeça mais sã. Eles aprenderam a se reinventar, descobriram novas habilidades e se tornaram excepcionais nelas. Mudaram sua realidade em decorrências das consequências e provaram que tudo é possível. São esses os exemplos que devemos nos espelhar, até porque, nas redes sociais, as pessoas que nasceram sem pernas só tiram fotos da cintura para cima.

A história de Zion Clark é rapidamente contada no curta-metragem "Zion" (2018) da Netlfix.

Uma semana MEGA produtiva a todos! Vamos pra cima!