SAF x Clube Associativo [ESSA NÃO É A QUESTÃO]
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SAF x Clube Associativo [ESSA NÃO É A QUESTÃO]

Fatos recentes que aconteceram no futebol brasileiro me fizeram pensar sobre uma questão muito simples: SAF ou Clube Associativo? Qual formato de clube vai garantir sucesso?

Délio Mendes
5 min
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Fatos recentes que aconteceram no futebol brasileiro me fizeram pensar sobre uma questão muito simples: SAF ou Clube Associativo? Qual formato de clube vai garantir sucesso?

E a resposta me parece obvia: nenhum dos dois formatos garantem nada. Nem sucesso, nem fracasso.

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Logo na primeira semana do ano de 2022 duas notícias que circularam na imprensa tomaram conta das redes sociais das torcidas de Cruzeiro (SAF) e Flamengo (clube associativo). No clube carioca uma divergência entre o vice-presidente de esportes olímpicos (cargo amador não remunerado e escolhido pelo presidente) e o diretor executivo da pasta (cargo profissional remunerado e contratado no mercado) colocaram frente a frente duas formas antagônicas de lidar com as gestões nos clubes brasileiros. Uma baseada na emoção, no voluntariado, no suposto amor pelo clube e que a experiência que já vimos nos mostra que o peso da influência política ditam os rumos dos projetos. E outra, baseada na capacidade de execução, com experiência de mercado e onde os resultados esportivos e financeiros não deixam espaço pra questionamentos políticos sobre capacidade ou não. A questão agora está nas mãos do presidente do clube e parece claro que ele terá que realizar uma escolha entre os dois personagens. E isso vai demonstrar muito do que o clube carioca pensa sobre a gestão para o próximo mandato (o presidente acabou de ser eleito no último mês de 2021).

Uma observação: o diretor executivo de esportes olímpicos do Flamengo está no clube há quase 10 anos após passagem vitoriosa pelo Minas Tênis Clube, o que fez o clube carioca ir ao mercado contratá-lo. Marcelo Vido é o seu nome. E os resultados esportivos do rubro-negro na pasta (basquete, judô, ginástica, nadação etc) não deixam dúvida da capacidade do profissional em questão.

No estado vizinho, Minas Gerais, a SAF Cruzeiro começa a deixar claro pro torcedor e pro mercado que há muito o que se fazer para recuperar o time. Dispensa de comissão técnica sabidamente cara, contratação de uma comissão nova, barata e que possui um quê de aposta, distrato com jogadores negociados pelo antigo executivo de futebol e culminando com a dispensa de um ídolo recente por questões financeiras. À parte a maneira extremamente fria demonstrada na questão com o goleiro Fábio publicamente - não temos como avaliar o que realmente aconteceu e como aconteceu nos bastidores - todas as decisões até aqui demonstram claramente uma direção: o caminho de reestruturação da raposa não será fácil. A simples criação da SAF não garante glórias imediatas e facilidade no processo de resgate de um time atolado em dívidas. A ilusão vendida por alguns de que a chegada de um investidor, como que num passe de mágica, fizesse com que um clube voltasse a contratar craques, montar grandes elencos e a conquistar títulos não passa disso: uma ilusão. A realidade é outra.

Por exemplo: os 400 milhões de reais de investimento na SAF Cruzeiro não salvam do dia pra noite nenhum clube na situação do mineiro. A título de comparação, usando inclusive o citado Flamengo neste texto, dois dos jogadores atuais do clube carioca custaram aproximadamente 200 milhões de reais - Pedro e Gabigol. Ou seja, metade do investimento feito por Ronaldo nos próximos 4 ou 5 anos daria pra contratar apenas 2 jogadores dessa qualidade.

A SAF não é o fim do processo. Não é um passe de mágica. É um dos meios possíveis de se gerir um clube com saúde e responsabilidade financeira e resultado esportivo satisfatório.

Nos 2 exemplos acima, fica claro que independente do modelo de cada clube, o que conta no final é a cultura profissional ou não que cada um adota. Um clube associativo como o Flamengo pode muito bem ser gerido de forma profissional, buscando profissionais no mercado capacitados, dando a eles autonomia e suporte político nos momentos de turbulência. O próprio rubro-negro vem demonstrando que isso é possível desde 2013 num resgate financeiro, administrativo e esportivo admirável. Mas ainda assim haverá momentos que colocam opostos o velho e o novo clube e é preciso deixar claro qual caminho será seguido. E a SAF Cruzeiro recém criada já nos mostra também que alguns vícios das gestões amadoras vão impactar diretamente na recuperação do clube e que decisões difíceis - às vezes cruéis até com o torcedor - terão que ser tomadas em nome de um futuro mais equilibrado e possível.

O caminho não é fácil em nenhum dos casos. Mas através da profissionalização (governança + gestão + capacitação) eu não tenho dúvidas de que essa trajetória levará a resultados mais perenes e minimamente previsíveis. No final, ainda se trata de um jogo onde o acaso impacta diretamente no resultado dentro de campo - ou quadra, ou piscina etc - mas se o trabalho for bem feito nos escritórios, mesmo na derrota haverá a compreensão fria de que o caminho a seguir é esse.