A lama perguntou para mim se eu já não estava enfadado dessa dança rotineira, se eu não planejava conhecer um novo habitat. Logo a respondi que a minha pele já estava tão habituada à sua textura que nada mais poderia me incorporar como o seu ...
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Photo by Julia Kadel on Unsplash |
A lama perguntou para mim se eu já não estava enfadado dessa dança rotineira, se eu não planejava conhecer um novo habitat. Logo a respondi que a minha pele já estava tão habituada à sua textura que nada mais poderia me incorporar como o seu volumoso vazio.
-Como pode se habituar com a obscuridade? Eu não sou bela como me vê, sou apenas o precipício daqueles que não sabem como voar. — respondeu a lama.
-Minha mente acorrenta minhas asas constantemente, não se pode voar quando nem se sabe andar. — respondi para a doce e acolhedora lama.
-A estrada da libertação é uma reta concorrente à sua determinação. O peso do esforço ou a aflição apática que sente quando está despojando-se em mim? O que prefere? — disse ela, aconselhando um caso perdido.
-Prefiro a angústia que suporto, o que ignoro é demais para mim. — respondi concisamente.
-Um anjo aficionado pelo pesar. Diga-me, qual impropério do céu te desiludiu? — perguntou a lama, demonstrando curiosidade.
-Como um ambiente perfeito pode ser excludente? Por quê nos deram o encanto do brilho solar apenas para calar nosso deleite com a taciturna escuridão lunar? — respondi, extraindo os pensamentos da profundidade da minha alma.
-Se adequará melhor ao fundo do poço, jamais a mim. — respondeu intolerantemente, enquanto me deslizou para um poço escuro e estreito.
Sinto falta da lama, o sol ali ainda brilhava e a dor era servida em boa dose. Ainda abaixo do poço há o inferno, mas lá habita os rejeitados do céu, lá existe luz — uma luz agonizante, mas ainda é luz. No fundo do poço nada machuca, nada brilha, nada fala, nada cheira, nada nada, nada, NADA! Existe somente a massa caótica que sou, e quando tudo que resta é o que sou, um inferno povoado é mais próximo do céu do que um poço abandonado.