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A última dança do planeta

By Kauê

Last update Last week10 Min.

The perfect halo of gold hair and lightning sets you off against the planet’s last dance.
The lightning strike - Snow Patrol, a música a qual inspirou o título desta reflexão.
Pergunte-me: O que é o sol? E se tudo tem um início, meio e final, o sol também terá? Responderei bem informalmente: Sim, o sol é uma anã amarela, uma estrela de quinta grandeza, a qual tornar-se-á uma gigante vermelha em aproximadamente 5 a 6 bilhões de anos. Depois de mais alguns milhões de anos, expelirá gases e poeira interestelar, criando uma nebulosa planetária ao seu redor e virará uma anã branca, até esfriar o suficiente e colapsar como uma anã negra, durando provavelmente até o fim do universo [esta última tratando-se de uma hipótese]. Se explicar detalhadamente, serão ao menos mais 5 parágrafos. Mesmo respondendo retoricamente, esse tipo de pergunta me anima de uma maneira singular.
Desde o jardim de infância, sou fissurado por astronomia. Se houve alguma paixão anterior, lamento desconhecer. Aos 5 anos de idade, meu primeiro sonho era ser astronauta, alguém que desafiasse as leis da Mecânica, de uma maneira delirante. Talvez aí resida a essência da infância: não há limites para a nossa criatividade.
Confesso não saber a procedência deste interesse. Desconfio que seja genético. Meu pai afirma que seu sonho era ser piloto comercial. Até hoje ele frequentemente assiste vídeos sobre aviões e o cotidiano de um comandante aéreo, o que reforça ainda mais a conjectura.
Assim como em música não é necessário saber ler partitura para poder apreciar a beleza de uma sinfonia, em física tampouco se precisa saber resolver uma equação para apreciar a beleza de uma teoria.
Contexto da citação: estava eu, saturado do cientificismo do próprio Carl Sagan (é fantástico e conhece como ninguém várias áreas do conhecimento. Entretanto, quando atreve-se a comentar a respeito de metafísica e espiritualidade, nada se aproveita). Já levemente revoltado para ler mais um cientista agnóstico, abro o prefácio de A Dança do Universo, do Marcelo Gleiser e, em 3 páginas, revitalizou minha alma. É simplesmente uma das frases mais sublimes que li ao longo dos meus 25 anos.
Aos 7 anos, ganhei de presente do meu pai um Almanaque Recreio (uma espécime de mini enciclopédia infantil, contendo um CD-ROM o qual considero a cereja do bolo). Usava este livro diariamente até uns 9 anos. Em relação ao CD, havia um modo bastante inusitado: era um álbum de figurinhas sobre eventos astronômicos e era extasiante. Fotos da Lua, Neil Armstrong, os Pilares da Criação, Saturno, Nebulosa de Hélix e Plutão (na época, ainda era planeta, saudades!), símbolos que despertam a curiosidade e fascínio de qualquer criança pelo espaço.
Entre 7 a 9 anos, passava 4h por dia decorando e aprendendo todos os dados possíveis de países dos atlas disponíveis, tais como: bandeira, área total, continente, capital, língua oficial, densidade demográfica, independência, etc. Caso me perguntes agora, provavelmente não lembro nem um terço do que sabia nesta época. Para a geografia, precisa-se de um alguns conceitos básicos emprestados da astronomia (como história da Terra, fenômenos astronômicos e até a importância da Lua para a humanidade). Acredito que seja um traço um pouco incomum nesta idade.
Dos 9 aos 12 anos, minha madrasta possuía uma versão importada de Cosmos, do Carl Sagan. Como era em inglês e tinha mais de 1500 páginas (digamos que um livro de cosmologia do CS, em um idioma estrangeiro não é exatamente a experiência mais acessível a uma criança de 12 anos de idade), contentava-me em contemplar aquelas estupendas imagens durante horas (hoje sei que são meramente ilustrativas ou simulações dos eventos cósmicos, mas em nada diminui o brilho daquele mundo inédito). Para nossa felicidade, ela ainda tem o livro mas está tão bem guardado que ninguém sabe onde.
Aos 12 ou 14 anos (não lembro ao certo só sei que era um número par), “ganhei” uma impressora dos meus pais. Eles tinham comprado uma multifuncional nova, então fiquei com a antiga. A primeira impressão que fiz foi de duas páginas sobre a teoria das cordas (antes de ser popularizada pela cultura pop). Nesta idade foi-me apresentado Michio Kaku, o famoso japonês da física teórica. Demorei algumas boas horas tentando decifrar aquele enigma e até hoje parece que não adiantou muito. Aparentemente, precisarei de mais algumas para compreender Hiperespaço, deste mesmo autor. Espero que, após mais de dez anos, esteja mais preparado.
E claro, não poderia deixar de dedicar um parágrafo exclusivo para Interstellar, o último excelente filme de Hollywood. Simplesmente uma obra prima, de arte e uma verdadeira magnum opus. A genialidade dos Nolan aliada a de Kip Thorne (eis o motivo de quase não haver furos nas leis da Física). Isoladamente o meu filme favorito da década. Espetacular. Como já é conhecido, o buraco negro supermassivo fictício Gargantua foi usado como referencial para estudos. Roteiro, fotografia, iluminação, trilha sonora, efeitos especiais (nem sempre CGI) e feeling impecáveis. Nas 9 vezes que assisti o filme, emocionei-me em todas. Parabéns aos Nolan.
Confesso que desenterrar essas lembranças do fundo do meu inconsciente deu-me uma nostalgia especial. Algumas não lembrava há mais de uma década. Epifanias jamais acontecem por acaso. Espero ser capaz de conseguir transmitir essa sensação em palavras e talvez inspirar ou motivar alguém na jornada. Propósitos existem pela tua completude e para que faça a diferença. Nunca renegue seu próprio potencial e felicidade.
Se relembrar algumas histórias da minha infância é intrigante, escrever sobre a astrofísica e os sentimentos que esta me instiga torna-se ainda mais interessante. Primeiramente, sou um aspirante a físico que gosta de escrever e não um escritor que sabe física e filosofia. Possuo muito mais uma mentalidade de físico-filósofo do que um físico-engenheiro, se é que me entende. Ainda assim, anseio a hora de provar matematicamente a beleza da equação de Dirac.
Desde a pré-adolescência, somos condicionados a acreditar que algumas áreas (dentre elas a Física), não têm boa remuneração ou que só poderia cursar por hobby, exigindo uma profissão consolidada e estável antes. Levei essa crença a sério por muito tempo e hoje pago o preço dos meus erros.
Ao longo da minha breve carreira acadêmica, passei por episódios embaraçosos. Sou formando em ciência da computação. Sem qualquer dúvida, fiz para agradar meus pais. Desde 2016, as divergências com o curso tornaram-se irreconciliáveis. Todavia, continuei porque ainda desconhecia o meu propósito. Dentro do meu curso, tentei várias especialidades diferentes mas nenhuma me agradou o suficiente. Computação definitivamente não é para mim.
Para não ser completamente injusto, gostei das disciplinas de matemática e engenharia e as de humanas (por serem bem mais fáceis que as demais). Como lado positivo, posso afirmar que a faculdade fez-me perder o medo de cálculo e da matemática. Infelizmente aquela paixão de infância havia sido abandonada há muitos anos. Ou pelo menos, foi o que imaginei.
Em 2018, ressurgiu sutilmente como uma ponta de esperança apontando para a engenharia biomédica (também tenho um grande apreço por equipamentos médicos, neuroengenharia e, em especial, a genética) ou aeroespacial, mas ainda sem aquela determinação exigida para considerá-la inevitável. Devo admitir que foi um imenso avanço em busca da felicidade intrínseca.
Já em 2020, haviam dois caminhos possíveis: física (preferível) ou engenharia aeroespacial ou mecânica (lado financeiro, uma ideia interessante). Com o home office, a faculdade praticamente não me atrapalhou e pude despender um tempo para um pré-interesse real pela filosofia. O principal papel deste ano foi amadurecer as ideias e preparar-me para o 2021 que viria e mudaria tudo drasticamente.
2021: o ano decisivo. Diante deste cenário, o desafio principal seria minha independência financeira até o término do novo curso. Como? Tentei uma abordagem mas não obtive muito sucesso. Mais uma mudança de planos. Graças às leituras desenfreadas e a filosofia, minha nova aposta é a escrita. Vejamos se estou certo. Depois de muita reflexão, análise, pressão, dor de cabeça, ataques de fúria e conversas, finalmente decolei ao agora inevitável destino: a física. Não há outro caminho ou um plano B. Não importa o que aconteça, é o meu propósito. Como o ano ainda está em curso, o jogo ainda pode ser virado. Já adianto que é possível, desde que seja para melhor.
Em outras palavras, quando era adolescente, queria voltar à infância. Na pós-adolescência (me recuso a afirmar que era um adulto jovem por considerar este termo uma criação de moderninho e por acreditar que não era maduro o suficiente, compreendendo entre 18 a 22 anos). Havia uma dose de saudosismo em relação a adolescência. Até tempo atrás, o passado me assombrava, provavelmente por não ter aproveitado o quanto gostaria ou não ter dado o meu melhor. Atualmente, acredito que tenha superado esse sentimento. Talvez finalmente eu tenha amadurecido de fato. Desejo, e deveria ter sido assim desde o início, focar somente no futuro e construir o melhor legado que eu conseguir.
Constantemente entro em atritos com a minha família pois física não é uma das áreas mais prestigiadas (no Brasil então... pior ainda). No meu meio familiar temos direito, administração, engenharia... mas física? Bem, isso é completamente atípico. Intuitivo ainda? Calculo que se tivesse nascido com uma vocação natural para direito ou medicina, minha vida seria incomparavelmente mais fácil.
A história é repetida e sempre dentro do senso comum esperado: “Procure um primeiro emprego, assim como todo mundo faz”. Astutamente argumento: eu não sou todo mundo. Poderia funcionar mas não por aqui. Não vejo muito sentido em trabalhar apenas por trabalhar (sem um propósito a mais) ou a possibilidade de crescimento profissional, seria um desperdício de tempo e talento que poderia estar sendo utilizados algo mais produtivo. Imagine o que de nós se Newton tivesse se dedicado somente um emprego comum? Ou Einstein tivesse trabalhado a vida toda apenas no escritório de patentes? Acredito ser mais útil estudando e escrevendo. Não há nada que faça-me sentir mais vivo do que mergulhar nos conceitos e nas profundezas da física.
Sinceridade? Não sei nem por onde começar a descrever sentimentalmente a Física. Sua simples menção já é motivo de calafrios. A possibilidade de estudar e trabalhar com aquilo que sempre sonhei ainda parece-me fora da realidade, inatingível ou obra da imaginação. Considero que meu maior privilégio foi ter me conscientizado a tempo. Por sinal, esta é uma grandeza linear, não podendo ser manipulada como bem entendemos, diferente das outras três dimensões físicas. Aceitar a nossa própria insignificância diante da magnitude do Universo é o primeiro passo para grandes progressos e em busca das nossas maiores virtudes.
Intuição é demasiadamente complicada de explicar. Mais de 80% do meu dia acontece dentro da minha própria mente. Não é necessário uma vivência no plano físico-material para que as ideias surjam. Na maioria dos cenários, pensamentos, reflexões e insights são suficientes para realizar o trabalho. Para que uma obra seja grandiosa, ela deve ter inspiração e motivação igualmente grandiosas. Estamos no século XXI e percebo que a mente humana ainda é muito subestimada. Nosso objetivo aqui é desvendar os mistérios que nos rodeiam.
Façamos a seguinte brincadeira: liste alguns físicos. Os primeiros posso adivinhar que são Albert Einstein, Isaac Newton e Stephen Hawking, certo? Listo outros como Erwin Schrödinger, Ernest Rutherford, Max Planck, Heinrich Hertz, J. J. ThomsonGottfried LeibnizWilhelm Röntgen (esses dois tive que copiar porque né), Niels Bohr, Robert Oppenheimer, Georges LemaîtreWerner Heisenberg, George Gamow e Michael Faraday. O que todos têm em comum além da paixão pela física? Todos eram intuitivos a sua maneira. Cada um possui uma imensa contribuição com o nossa evolução tecnológica e científica. Nossa educação é falha e não nos instiga e revela a verdadeira beleza da mais bela das ciências.
Há um Criador e a comprovação de sua Existência é a perfeição das leis do Universo, em qualquer escala cósmica, desde dos mundos do muito pequeno (mecânica quântica) até as maiores distâncias intergalácticas. Nada é por acaso. O princípio cosmológico perfeito é um princípio metafísico e rege a natureza em sua totalidade. Isso quer dizer que a natureza no nível físico é cognoscível, ou seja, ela pode ser conhecida, já que suas leis são absolutas, tanto no espaço-tempo, como para os observadores. Gostaria de agradecer o querido e amigo professor Marcelo por esta brilhante citação e todos os ensinamentos.
Não quero ser Newton. Quero ser eu, Kauê. Permita que meu propósito me direcione e farei o possível para que dê certo. Jamais desista antes mesmo de tentar, mesmo que as probabilidades sejam todas contrárias. Nunca é tarde demais. Só preciso de um tempo e confiança. O resto acontecerá, se Ele permitir.