O Livro de Areia ou as infinitas leituras dos tempos atuais.
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O Livro de Areia ou as infinitas leituras dos tempos atuais.

   O Livro de Areia é um conto de Jorge Luis Borges (1975) que relata a existência de um livro misterioso (dos confins de Bikanir...) oferecido ao narrador por um vendedor de bíblias. É um livro infinito. Não se inicia e nem se termina:

Rodrigo Amorim Tarsia
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O Livro de Areia é um conto de Jorge Luis Borges (1975) que relata a existência de um livro misterioso (dos confins de Bikanir...) oferecido ao narrador por um vendedor de bíblias. É um livro infinito. Não se inicia e nem se termina:

 " Pediu-me que procurasse a primeira folha. Apoiei a mão esquerda sobre a portada e abri com o dedo polegar quase pegado ao indicador. Tudo foi inútil: sempre se interpunham várias folhas entre a portada e a mão. Era como se brotassem do livro."
 " - Não pode ser, mas é. O número de páginas deste livro é exatamente infinito. Nenhuma é a primeira; nenhuma, a última. Não sei por que estão numeradas desse modo arbitrário. Talvez para dar a entender que os termos de uma série infinita admitem qualquer número."

   O narrador  adquire o Livro de Areia em troca do montante de sua aposentadoria e da Bíblia de Wiclif em letras góticas ( a black letter Wiclif ) herdada de seus pais. 

   Torna-se então um leitor obcecado. Não consegue desvincular-se  de seu tesouro. Assim como Gollum fora drenado pelo Anel, o Livro de Areia consumia seu proprietário:

" Não mostrei a ninguém meu tesouro. À ventura de possuí-lo se agregou o temor de que o roubassem e, depois, o receio de que não fosse verdadeiramente infinito. Estas duas preocupações agravaram minha já velha misantropia. Restavam-me alguns amigos; deixei de vê-los. Prisioneiro do Livro, quase não saía à rua."

" De noite, nos escassos intervalos que a insônia me concedia, sonhava com o livro."

   O narrador percebe a monstruosidade do livro; verdadeiro objeto de pesadelo capaz de corromper a realidade. Tenta então livrar-se dele por meio do fogo mas não o fez com medo de provocar um incêndio sem fim. 

   Lembrou-se ter ouvido falar de que o melhor lugar para ocultar uma folha é um bosque. Perdeu o Livro de Areia numa prateleira qualquer da imensa Biblioteca Nacional, deu-lhe as costas sem olhar para trás...

    A metáfora do livro infinito de Borges prenuncia o surgimento da Internet e de seu ilimitado poder de informar e alienar. A materialidade do livro de páginas intermináveis está presente no manuseio de um Kindle ou de um tablet ( upgrades das tabuinhas de barro da Babilônia e verdadeiras bibliotecas de Babel ).

   O que faremos caso a realidade seja apropriada por essas máquinas de sonhos e de pesadelos? Seremos capazes de acordar ou apenas mudaremos de página? Haverá ainda um bosque ou uma floresta para nos libertarmos?

Referência:

BORGES, Jorge Luis, 1899-1986. O livro de areia; tradução de Lígia Morrone Averbuck. Rio de Janeiro, Globo, 1984.

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