Che Guevara de apartamento e o capitalismo selvagem
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Che Guevara de apartamento e o capitalismo selvagem

Outro dia minha namorada veio conversar comigo sobre o preconceito sofrido pelos socialistas de iPhone, pejorativamente chamados de "Che Guevara de apartamento"

Bruno
7 min
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Escrevo esse texto como um complemento ao artigo "A maçã, a foice e o martelo" (leia aqui), onde eu cito que

É óbvio que qualquer pessoa deve ser livre para comprar um iPhone quando quiser! Mas entenda que toda ação tem uma reação!

Outro dia minha namorada veio conversar comigo sobre o preconceito sofrido pelos socialistas de iPhone, pejorativamente chamados de "Che Guevara de apartamento". Não, ela não é nem de longe um desses. Mas se preocupava com a discriminação em si. Tanto por parte dos socialistas raiz quanto pelos capitalistas.

Eu disse a ela que até entendo as críticas dos socialistas, mas dos capitalistas, não! Afinal, se você defende um sistema econômico e teu "adversário" vem validar teu sistema comprando algo caro, você deveria agradecer ao invés de criticar: "oba! seja bem vindo devoto de Marx, compre mais e mantenha o sistema que ele tanto repudiou".

Penso o oposto dos socialistas raiz. Estes sim tem motivos para criticar seus semelhantes que consomem não apenas iPhones como outras coisas caras e luxuosas. O consumo eleva o status de um produto e valida o preço cobrado pelos "burgueses".

Ela, minha namorada, me questionou se não era um direito dos socialistas comprar iPhones ao mesmo tempo que desejam que TODOS tenham acesso a um aparelho desses. Então a convidei a refletir. Juntos. Da seguinte forma:

  1. Se eu desejo que todos tenham acesso a um produto, este deve ser o mais barato possível.
  2. Entretanto, se nós comprarmos tal produto a um preço caríssimo estaremos dando o "OK" para o preço que a "burguesia" pediu.
  3. Se a "burguesia" sempre receber o valor caríssimo pelo produto, ninguém jamais vai abaixar de preço e, aos poucos, cada vez menos pessoas terão acesso a ele.
  4. Por outro lado, ao EVITAR COMPRAR tal produto caro, o que ocorrerá com ele? a tendência é que grandes quantidades fiquem encalhadas nas lojas.
  5. Quanto maior a quantidade encalhada maior é a pressão para a "burguesia" reduzir o preço daquele produto, sob o risco de morrer com ele na mão!

O boicote a um produto pressiona os ricos produtores a abaixar seu preço até que todos possam compra-lo. E é assim que todos poderiam ter acesso a um iPhone. É assim que ocorre em países desenvolvidos!

Mesmo concordando, ainda restou uma dúvida na cabeça dela: "mas e se ao invés de boicotar produtos caros para pressionar a queda do preço, a gente exigisse salários maiores?"

Nesse caso, convidei-a refletir juntos. Novamente.

Se um empresário aumenta seu custo (seja com salário, impostos ou insumos) mas não aumenta seu preço final, o lucro diminui. Será que alguém na face da terra fica feliz em ter seu lucro reduzido?

Pode ser que uma pequena minoria aceite pacificamente perder dinheiro, mas eu GARANTO que a grande absoluta maioria não vai ficar de braços cruzados! certamente eles aumentarão o preço de seus produtos para compensar o gasto extra com aumento de salário.

E alguns empresários aproveitam para aumentar o preço ALÉM do necessário justamente por saber que todos estão ganhando mais, pois o aumento causa uma sensação ilusória de poder nas pessoas e elas se endividam achando que seu aumento salarial vai dar jeito na dívida!

Resumindo: caso aumentássemos o salário mínimo para 10 mil para permitir que todos comprem um iPhone, os empresários vão aumentar o preço do iPhone para 80 ou até 100 mil - por exemplo - para compensar o gasto com salários! Isso se chama INFLAÇÃO.

"Olha, agora que você explicou dessa forma simples eu entendi. Mas ainda me resta uma dúvida... não bastaria o governo tabelar e congelar o preço dos produtos" - disse ela.

É uma ótima pergunta. E para responder basta pensar em outra pergunta: será que alguém se motivaria a produzir algo ganhando pouco por isso?

A resposta é mais simples do que parece. Isso já foi feito na década de 80 aqui mesmo no Brasil. O país congelou o preço de alimentos e adivinhem só? NINGUÉM QUIS PRODUZIR MAIS NADA!

Plano Cruzado, 30 anos, teve preços tabelados e fiscais do Sarney; lembre

O resultado: prateleiras vazias. Faltaram alimentos e produtos básicos. Passamos fome simplesmente porque o governo (infantilmente) achou que os produtores seriam "bonzinhos" ao ponto de aceitar reduzir seu lucro à força! é mole?

A conversa com a minha namorada foi produtiva e elucidativa mas eu tinha explicado a ela o que NÃO se deve fazer para ajudar os pobres. Ainda faltava explicar a solução correta.

Como em todo sistema de oferta e procura, o 1º ponto é assumir que não existe "burguês" ou empresário bonzinho. Ok existem raras exceções, mas precisamos assumir que a grande maioria não lhe entrega um produto/serviço porque gosta do teu sorriso. Jamais! ele lhe entrega porque ele quer o NOSSO DINHEIRO. Ele não está fazendo favor algum. Ele só quer enriquecer.

OK. Assumindo isso, temos que entender que todos cobrarão o maior preço possível por algo, a menos que... nós recusemos sua oferta. Só então ele abaixará o preço até que seja vantajoso tanto pra ele quanto pra nós.

Ainda assim há um limite nessa conta: O CUSTO DE PRODUÇÃO.

Um produto jamais será mais barato que seu custo de produção. Se todos visam lucro, isso parece óbvio né? Então a melhor forma de incentivar a queda no preço de um produto é abaixar seu custo de produção.

Impostos são os grandes vilões nesse aspecto e por isso temos que cobrar do governo sua imediata redução. Além disso a tecnologia também pode contribuir. Com o desenvolvimento de novas tecnologias é possível baratear o custo de produção usando melhor eficiência energética e insumos reciclados.

Mesmo assim pode ser que um empresário não queira abaixar seu preço ainda que os custos de produção tenham sido reduzidos. Como poderíamos coagi-lo? Mais uma vez a resposta é mais simples do que parece: CONCORRÊNCIA!

Lembre-se: o pão da padaria da esquina não é aquele porque o dono gosta do teu sorriso. É aquele porque você aceitou pagar. Se todos recusarem aquele preço e resolverem comprar pão do outro lado da rua numa padaria mais barata, é óbvio que o dono da 1ª padaria NÃO sustentará o preço caro por muito tempo.

Baratear custos de produção e fomentar a concorrência reduzindo burocracia faz um país criar ambientes propícios à redução de preços.

Pense no seguinte: imagine que só existe 1 padaria no teu bairro e que o dono cobra caro pelo pão. Se o custo de produção for elevado poucas pessoas se motivarão a abrir padarias. Ele se perpetuará como único provedor de pão (e caro).

Mas se o custo de produção/impostos for barato e não houver burocracia, outras pessoas irão se encorajar a abrir novas padarias e oferecer preços mais baratos do que aquela única existente no teu bairro. Toda comunidade ganhará com isso. Não porque empresários são bons, mas porque é vantajoso pra eles oferecer algo barato pra nós!

Podemos usar todo esse exemplo pro iPhone?

É claro! O preço do iPhone só é o que é pelos dois motivos já citados: o custo no Brasil é um absurdo e a procura é alta.

Parte da culpa é de quem aceita o preço oferecido, portanto, se você compra um iPhone você contribui para o preço se manter alto.

Outra parte da culpa é do governo que cobra impostos caros e nunca oferece redução de custos ou ambientes competitivos.

Não é por acaso que os países que tem melhor índice para se empreender são justamente aqueles onde o iPhone é mais barato!

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Quais são os melhores países do mundo para empreender?

Quais países possuem o iPhone 14 mais barato?

Enfim, podemos concluir que todo socialista que compra um iPhone no Brasil mas deseja ajudar os pobres, na verdade, está atrapalhando.

Para construir um país melhor é preciso muito mais do que palavras. É preciso esforço. Mesmo que para isso seja preciso abdicar do seu smartphone favorito. É preciso resistir a tentações. É preciso dar o exemplo. E acima de tudo, é preciso ser crítico ao governo enquanto ele não for do jeito que tem que ser!

A outra solução é assumir ser um capitalista selvagem. Mas isso ninguém quer...