A inteligencia não artificial
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A inteligencia não artificial

Pedro Fornaza
4 min
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Um texto que eu escrevi

Ultimamente venho estudando sobre a construção de conhecimento e inteligência. O post da semana passada sobre histórias faz parte disso. As histórias são uma parte de como construímos o conhecimento coletivo e como passamos esse conhecimento adiante, especialmente em uma época onde não existe a escrita, não existe livros e a construção de conceitos ainda engatinha.

Nesse post, vamos discutir o outro extremo. Um dos assuntos mais discutidos dos últimos meses vem sendo a inteligência artificial, principalmente depois do lançamento do ChatGPT. Muita gente discute as capacidades e todas as possibilidades, outras tem medo de perder o emprego e serem substituídos, e alguns até pediram para que os estudos parassem, com medo do futuro.

Mas primeiro: que raios é inteligência artificial (daqui pra frente vou usar apenas a abreviação “IA”, para facilitar)? Existem muitas “categorias” mas vou me limitar apenas as parecidas com o ChatGPT. Imagine uma biblioteca muito grande, onde você consegue colocar milhares e milhares de livros. Agora imagine uma bibliotecária muito rápida, que consegue te entregar o livro que você pedir em menos de 1 segundo. Agora imagine que você pode fazer perguntas para essa bibliotecária, ela vai consultar os livros que conhece e te dar uma resposta.

De uma maneira bem simplista, funciona dessa maneira. As pessoas “carregam” essa máquina com conhecimento, textos, livros, posts e tudo que encontrarem e essa máquina varre esse mar de informação, cruzando dados e palavras para te entregar um resultado especifico.

E por que muita gente tem medo de perder o emprego? Bom, alguns já perderam. A capacidade dessas IAs de produzir textos, recomendações e imagens, por exemplo, acelera e facilita muito o trabalho de redatores, marqueteiros, e as vezes até mesmo de artistas.

Em essência, todo trabalho que pode se tornar repetitivo e / ou padronizado, é uma vitima em potencial. Nem por isso deveríamos temer a tecnologia. Como todas as outras tecnologias anteriores, a IA é uma ferramenta e bem poderosa. As IAs podem representar um salto como foram as inovações das revoluções industriais e a internet. E como toda ferramenta, ganha quem sabe usá-la, perde quem não sabe.

Alguns empregos e funções vão sumir, mas outras vão nascer, o mundo nunca vai se esgotar de trabalho. O que vão mudar são os tipos de trabalho. Conforme a evolução da tecnologia aconteceu, os trabalhos mais manuais foram substituídos por funções cada vez mais técnicas e criativas. Essa troca só vai acontecer de maneira mais rápida agora.

O que nos diferencia dos outros animais é a capacidade de construir conhecimento, especialmente através do pensamento analógico:

“O pensamento analógico profundo é a prática de reconhecer similaridades em múltiplos campos de conhecimento ou cenários que, superficialmente, parecem ter muito pouco em comum. […] O pensamento analógico transforma o novo em algo familiar ou pega algo familiar e coloca-o sob uma nova luz, permitindo aos seres humanos raciocinarem sobre problemas nunca encontrados e em contextos desconhecidos.”

Trecho do livro “Por que os generalistas vencem em um mundo de especialistas” - David Epstein

Em outras palavras, as analógicas. Lembra da bibliotecária, lá no começo do texto? Não foi muito mais fácil entender como funciona uma IA utilizando esse cenário? A IA e a nossa biblioteca hipotética tem semelhanças muito pequenas e bastante abstratas e mesmo assim foi possível tratar o paralelo e utilizar algo que já conhecemos para compreender o outro.

Essa é uma capacidade que, até hoje, nada que não fosse um ser humano conseguiu replicar, e é exatamente no que somos bons. É também, por isso, que não devemos ter medo das tecnologias e novas ferramentas quando o assunto é trabalho (as IAs tem outros perigos, mas não é o escopo do texto de hoje).

Apesar de poderosas, elas nunca vão conseguir fazer o que fazemos. Elas podem ter todo o conhecimento do mundo guardado, mas não são capazes de conectá-los de maneira útil sozinhas, ainda é necessário que um ser humano diga o que juntar com o que para que a IA execute. Por enquanto, nós não vamos a lugar algum, fique tranquilo.


Um livro que eu indico

“Por que os generalistas vencem em um mundo de especialistas” - David Epstein
“Por que os generalistas vencem em um mundo de especialistas” - David Epstein

Aproveitando que o livro já foi citado no texto, vou indicá-lo aqui também. Sempre ouvimos que precisamos começar cedo, nos esforçar ao máximo se quisermos nos destacar. Se você não começar o judô aos 5 anos, nunca vai ganhar uma olimpíada. Pois é, pode ser assim em alguns casos, mas não em outros. O livro discute os domínios “generosos” (onde os padrões se repetem, com regras e limites definidos, como alguns esportes) e os “perversos” (onde os padrões são mais raros e as regras raramente conhecidas ao todo) e a aprendizagem em cada um deles deve ser abordada de maneira diferente. Se você quer se destacar no mundo dos negócios (domínio perverso), é melhor ser um generalista.