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#21 - otimista porém depende

By Fred Fagundes

Last update 5 days ago5 Min.

#21 - otimista porém depende
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Transcrição do episódio:
Todo mundo tem um amigo que gosta de indicar séries. Mas não e “só indicar”, tipo, “eu assisti Dark e achei legal”. É uma coisa muito mais impositiva. É você TEM que assistir Dark. Você PRECISA assistir. Você vai ADORAR, aquele negócio parece que foi feito pra você. 
É assim desde o surgimento da Netflix. Antes as indicações eram até mais amenas. Eram, na verdade, profissão. O atendente de locadora bom era aquele que já reconhecia o seu gosto depois da terceira locação e indicava os melhores lançamentos. O cara era o algoritmo orgânico do “talvez você goste disso”. Só que aí vieram os serviços de streaming e criaram esses formatos de séries que são lançadas todas de uma vez e que, pra mim, é o esquema pirâmide que salvou o cinema da pirataria.
Eu sou esse tipo. Eu gosto de quase obrigar a pessoa a assistir. “Ah, não tenho Amazon Prime”. Azar, pega minha senha. “Ah, minha TV não é Smart”. Eu te trago amanhã num pendrive com 1080 full hd e legendado. Mas você tem que assistir porque você vai gostar e, principalmente, porque eu quero alguém pra conversar sobre isso. 
Eu ando desse jeito com a série Ted Lasso, da Apple TV. Eu não quero entrar no mérito da série, fazer análises de roteiro, atuação, nem nada. É porque o personagem central, o Ted Lasso, ele me fez lembrar uma história que tem muito a ver com a série. 
Pra quem ainda não viu, vou resumir sem spoilers. Ted Lasso é um treinador de futebol americano universitário que recebe o convite pra treinar um time de futebol da Premier League, na Inglaterra, considerado o principal campeonato nacional de clubes do mundo. Ele não entende nada de futebol, nada, não sabe nem quantos minutos tem cada tempo, mas ele tem um perfil otimista e conciliador que colabora na construção de resultados. É uma série que tinha tudo pra dar errado. Mas a verdade é que ela é engraçada, dramática, emocionante, tudo no limite do que pode ser considerado piegas. Ou cafona. É uma série equilibrada. 
Pra resumir, Ted Lasso é a Gilmore Girls do futebol. E sem a Rory, que era insuportável. 
O Ted é um treinador que tem o discurso da motivação como ferramenta fundamental para qualquer time. Isso é muito comum nos esportes, inclusive no futebol. Há ótimos discursos motivacionais no cinema, como do Al Pacino em Um Domingo Qualquer ou do Pernalonga em Space Jam 1. 
Essa coisa motivacional também faz parte do mundo corporativo. Não sei se vocês viram há pouco tempo a inauguração de uma unidade do Coco Bambu, onde os funcionários berravam um cântico de batalha. Parecia até que iam pescar o camarão com os dentes, quando na verdade só iam jogar 3 pote de creme de leite em qualquer prato da casa. 
Às vezes destravar essa chavinha com um bom discurso pode fazer o seu companheiro jogar mais que o normal. Não que isso seja o fundamental. Mas é aquela sensação de “bom, pelo menos tentamos algo diferente”. Um dos mestres disso no futebol brasileiro é o Vanderlei Luxemburgo. Dizem que a preleção dele no vestiário é de fazer chorar qualquer jogador. 
A história que eu citei lá no começo, que o Ted Lasso me fez recordar, aconteceu em meados de 2009, ou 2010, não lembro bem. Como eu disse, nunca fui do perfil líder, de querer incentivar ou puxar uma motivação diferente ao time. Mas me coloquei numa situação tão frustrante certa vez durante um campeonato que me baixou o Luxemburgo.
A gente já tinha perdido dois dos primeiros jogos da fase classificatória. Ali, aquele último jogo, já era mais pela honra. Tava todo mundo meio preocupado porque, além do time jogar mal, havia o receio do vexame. Foi aí que eu reuni o pessoal no meio do campo e comecei a falar. Frases que começavam tímidas e até um pouco envergonhadas foram ganhando força e atitude. Falavam de justiça, de honestidade, de hombridade, de amizade, de honra.
Eu até lembro de parte do discurso. Era algo mais ou menos assim.
Gurizada, seguinte. A gente não pode perder. Eu olho lá fora, na arquibancada, vejo a filha do fulano, a esposa do ciclano, pessoas que vieram até aqui por nossa causa. Não é hora de passar vergonha. Vamos jogar por eles. Essa camisa não representa nada em nossas vidas, mas quem vai usá-la será cada um de vocês. Vamos entrar lá e fazer o nosso melhor. Podemos perder. Foda-se o campeonato, foda-se tudo isso. Mas se for para perder, vamos deixar sangue nesse campo. Não vamos nos entregar. Vamos ajudar o amigo quando ele precisar. Hoje é o dia de tirar esforço da puta que pariu. Porque esse jogo vale a nossa honra.
E aí, rapaz, naquele momento todo mundo se sentiu de fato um time. Deixamos de ser um apanhado de amigos jogando bola e vimos que, nos ajudando, concentrados, a gente podia fazer algo diferente. Não importava se o campeonato era de várzea, se o campo era ruim. A gente sabia que, se caíssemos, ia ser de pé.
Quando entramos em campo e assumimos as nossas posições, deu pra ver a cumplicidade de cada um. Eles ouviram aquele meu discurso não como papo furado, mas como uma convocação. Fomos pro jogo. 
A gente perdeu de 12 a 0.
O outro time não ganhou porque eles estavam mais motivados. Ganharam porque eram melhores.
Nesse dia eu entendi que motivação é igual rezar pra Deus pras coisas acontecerem. Não é isso que vai trazer a solução definitiva. A fé e a vontade não agem sozinhas. E só existe uma coisa pior que se diminuir e procurar justificativas pra uma conquista aleatória: ser condicionado a elas.
Portanto, você, colaborador do Coco Bambu ou similar que faz grito de guerra antes de começar a trabalhar, lembre-se: se o negócio tá indo bem, não é porque você foi motivado pelo patrão. Não é porque Deus escolheu. É porque você simplesmente é bom no que faz. E se der errado, não foi o diabo ou falta de vontade.
É só a realidade. A gente às vezes só não é bom naquilo. Eu conheço uma série que explica isso.
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Sobre o autor: Fred Fagundes é jornalista, produtor de podcasts e dono das melhores vagas em estacionamentos. Em caso dúvidas ou sugestões, entre em contato via redes sociais ou pelo e-mail: [email protected]