Plebiscito, de Artur Azevedo; O Homem que Sabia Javanês, de Lima Barreto; e, O Homem da Cabeça de Papelão, de João do Rio
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Plebiscito, de Artur Azevedo; O Homem que Sabia Javanês, de Lima Barreto; e, O Homem da Cabeça de Papelão, de João do Rio

Três contos de humor, de três escritores brasileiros que estão entre os melhores que o Brasil produziu, contos que revelam, cada um deles, um aspecto negativo da gente e da sociedade brasileiras; unidos, constituem um amplo cenário do que foi...

Sergio Ricardo
2 min
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Três contos de humor, de três escritores brasileiros que estão entre os melhores que o Brasil produziu, contos que revelam, cada um deles, um aspecto negativo da gente e da sociedade brasileiras; unidos, constituem um amplo cenário do que foi o Brasil ontem e do que é o Brasil hoje - e do que será o Brasil amanhã?

O de Artur Azevedo, Plebiscito, o mais simples e curto do três contos aqui nomeados, conta um constrangedor capítulo - e hilário aos olhos do leitor - da vida do senhor Rodrigues, que, abordado por Manduca, seu filho, que lhe pergunta o que é 'plebiscito', em vez de lhe dizer que ignora o significado de tal substantivo, bate pé, faz-se de ofendido, e, ao fim, após consulta ao pai dos burros, dá-lhe a explicação pedida, e a complementa com um comentário que revela sua orgulhosa ignorância.

O Homem que Sabia Javanês, de Lima Barreto, talvez o mais popular conto da literatura brasileira, narra a aventura, bem-sucedida, sem percalços, do senhor Castelo, que, vendo-se sem meios, decide, para obter um bom emprego, atender a uma exigência de órgãos públicos, e dedica-se a estudar um idioma que ele não sabia que existia, o javanês. Ele não aprende, é óbvio, tal idioma; dá apenas uma lambida em livros que dão a conhecê-lo - mesmo assim, obtêm uma sinecura, que lhe enche as burras de ouro, e dá-lhe acesso à aristocracia, e empresta-lhe fama que lhe permite gozar de prazeres mundanos. Toda a sua carreira de homem que sabia javanês é um embuste, mas no meio social em que vive não são males a sua ignorância e a sua incultura, pois os integrantes de tal meio, tão ignaros e incultos quanto ele, também vivem de aparências.

É o menos conhecido dos três contos aqui apresentados em breves comentários o de João do Rio, O Homem da Cabeça de Papelão. E é o mais emblemático deles. Enquanto o de Artur Azevedo cuida da ignorância soberba de um homem e o de Lim Barreto da corrupção de um homem de princípios reprováveis vivendo em um meio social que atende à sua natureza corrupta, o de João do Rio dá-nos a conhecer a perdição de uma alma íntegra, a de Antenor, Antenor, que, num meio social corrupto, de gente leviana, de mundanos, incompreendido, amargurado, angustiado, decide, certo dia, converter-se em outra pessoa, pessoa que era o oposto dele; a partir de então se faz, de um homem impoluto, um ordinário estróina, que se ocupa em satisfazer seus mais baixos prazeres, animalescos, assim vindo a ser popular entre os da sociedade mundana, de gente de conduta tão degenerada quanto à dele. E ao final da história, tendo a oportunidade de recuperar sua alma original, recusa-se a fazê-lo. Perde-se.

Os três contos fornecem ao leitor ingredientes para a compreensão do espírito brasileiro e da constituição da sociedade brasileira. São imperdíveis.