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Uma análise sobre as manifestações do dia 12/09

By Thiago Lima

Last update Last week6 Min.

No dia 12/09 foram realizadas manifestações a favor do impeachment do presidente Jair Bolsonaro organizadas pelo MBL e pelo Vem pra Rua. Nesse texto, gostaria de trazer uma perspectiva de quem participou e militou para divulgar o ato.
1. Muito cacique para pouco índio
As manifestações contaram com um elemento novo: fugindo da velha dualidade esquerda X direita, lideranças de diferentes espectros ideológicos convocaram suas bases e compartilharam o mesmo palanque. Kim Kataguiri, Arthur do Val, João Doria, Ciro Gomes, Orlando Silva, João Amoedo, Isa Pena e outros subiram em um caminhão de som para discursar a favor da saída do presidente.
Entretanto, a mobilização promovida por essas figuras não foi suficiente para arregimentar seus respectivos públicos a saírem às ruas. Vejo as seguintes razões para tal:
a) O público mais à direita não se sente confortável em protestar ao lado de militantes de esquerda que carregam seus símbolos característicos: a camisa vermelha; a foice e o martelo; o apoio à pautas identitárias, etc;
b) O público mais à esquerda, por sua vez, sente um incômodo por participar de uma manifestação com militantes de direita que defenderam o impeachment de Dilma; votaram majoritariamente em Bolsonaro no pleito de 2018; apoiaram a operação Lava-Jato e a prisão de Lula;
2. A nova Frente Ampla não consegue insuflar as massas
Muitos dos discursos realizados nas manifestações fizeram um paralelo entre os movimentos da Frente Ampla, constituída no início da ditadura militar por figuras como Carlos Lacerda, Juscelino Kubitschek e João Goulart, e das Diretas Já.
No entanto, as lideranças políticas atuais que estiveram presentes no ato do dia 12/09 ainda não conseguiram se comunicar efetivamente com o público fora de sua militância mais engajada. Participei pessoalmente de eventos que tentaram promover a manifestação e percebi que a desaprovação ao governo possui consistência, conforme apontam os levantamentos estatísticos, todavia essa repulsa permanece silenciosa.
As pesquisas de opinião demonstram que a desaprovação ao governo Bolsonaro é consideravelmente superior à aprovação; nos cenários eleitorais, o Presidente da República perde para qualquer outro candidato. Contudo, os atos mostraram que houve uma incapacidade dos grupos favoráveis ao Impeachment em fazer as pessoas insatisfeitas com o governo a saírem de casa.
3. A principal liderança contra Bolsonaro não quer o impeachment
É inegável que o PT e seu principal líder, Lula, são vistos pela opinião pública como a maior oposição a Bolsonaro. Todavia, o Partido dos Trabalhadores não se articula para construir o impeachment, desejando disputar a eleição de 2022 contra o atual presidente. A oposição torna-se meramente retórica e narrativa, dado que a vontade do partido é enfrentar um Bolsonaro completamente enfraquecido por causa de sua desastrosa gestão, mas suficientemente forte para ir ao 2º turno.
A preponderância exercida pelo PT no campo da esquerda desmobilizou boa parte dos apoiadores inicialmente simpáticos a manifestação. Desde os ataques aos movimentos de direita que organizaram o ato, até uma reprovação pública daqueles que se interessaram em participar, o partido se utilizou de todo poder dentro de seu espectro ideológico para diminuir a adesão de outras instituições. Para se ter uma ideia, a hastag divulgada no Twitter por influenciadores petistas foi: #DomingonosofacomLula.
Os cenários apontados pelas pesquisas eleitorais mostram que Lula venceria facilmente Bolsonaro no 2o turno; a rejeição ao ex-presidente só não é maior do que a do atual; Lula, sem fazer campanha alguma, fazendo poucas declarações públicas, não se posicionando enfaticamente sobre os assuntos discutidos no país somente cresce nas pesquisas.
Portanto, pensando eleitoralmente, não faz o menor sentido Lula querer a saída de Bolsonaro. Ademais, o governo vem contribuindo em termos de pautas para o fortalecimento do PT: a indicação de Augusto Aras e André Mendonça para PGR e ministro do STF, respectivamente; o aumento substancial de emendas parlamentares a deputados e senadores do centrão, cuja maioria irá apoiar Lula na eleição; o desgaste das agendas econômicas liberais e conservadora nos costumes.
4. A manifestação do dia 12/09 pode ser o início de um novo fenômeno político
O Brasil experimentou ao longo dos últimos anos diferentes formas de expressão política. Destacando-se:
a) O surgimento do Bolsonarismo, resultado do espírito de criminalização da política, aversão às ideias de esquerda e captura de um suposto discurso conservador presente na sociedade misturados a um culto messiânico;
b) O crescimento do progressismo, com base em uma agenda identitária advinda de uma importação de discursos dos grandes centros urbanos americanos e europeus;
c) A reformulação de um pensamento liberal defendido por setores da classe média brasileira que observaram seus interesses sendo preteridos ao longo do tempo;
Desse modo, acredito que a manifestação pode ter trazido novidades a mesa:
a) A presença de vários líderes partidários representando o entendimento de que a política é necessária, consensos devem ser construídos para se obter avanços;
b) O diálogo entre setores que possuem amplas divergências entre si em contrapartida à polarização desmedida e inescrupulosa que tomou conta do país;
c) A aversão a tendências políticas que não possuem posicionamento político claro, mantendo-se em cima do muro para não perder seguidores, likes e compartilhamentos;
5. Conclusão: O movimento pelo Impeachment possui potencial de crescimento, mas corre contra o tempo
As manifestações podem ter sido menores do que previstas por organizadores e militantes que atuaram em sua divulgação. Porém, há motivos para se pensar que as próximas possuam maior capilaridade:
a) A deterioração econômica do país aumentará a rejeição da população ao governo Bolsonaro. Inflação em amplo crescimento, crise hídrica que pode provocar um apagão de energia, desemprego em alta, avanço dos níveis de pobreza e desigualdade...
b) Novas movimentações golpistas por parte dos apoiadores do presidente podem provocar a sociedade civil a agir. As manifestações do dia da Independência visaram apoiar o presidente da república a dar um golpe de Estado; No dia 08/09 houve um ensaio de uma greve dos caminhoneiros que tinha como objetivo a implantação de um estado de sítio no Brasil, garantindo ao executivo federal maiores poderes;
Dessa forma, vejo que as manifestações do dia 12/09 foram o início de uma construção de uma nova linguagem política que ainda precisa amadurecer para conseguir agregar pessoas de visões políticas completamente opostas, mas que repudiam Bolsonaro. Além disso, há margem para cativar os cidadãos comuns a expressarem sua revolta contra o governo federal nas ruas.
Resta, no entanto, a dúvida se essa nova força conseguirá se manifestar de maneira consistente antes do período eleitoral. Essa coalizão possui como elos unificadores o impeachment de Jair Bolsonaro e o respeito às diferentes visões de mundo, porém uma vez iniciada a corrida eleitoral, os diferentes projetos de poder serão colocados em debate e os atores políticos, hoje unificados, irão se dividir para disputar espaços na máquina pública.