Muitos pensadores da história humana definiram a filosofia, bem como o ato de praticá-la, de formas variadas. A definição que mais gosto, entretanto, é a de Cícero:
”Filosofar é aprender a morrer.”
A primeira vista, essa definição parece desestimulante e um tanto melancólica. Mesmo assim, acredito ser a mais precisa e verdadeira entre todas que já me deparei.
Preenchendo o vazio e buscando conforto
O ser humano é curioso. Ao longo da nossa história, tudo o que fizemos - dos tempos do nomadismo até a sociedade pós-moderna de hoje - foi, fundamentalmente, o resultado da busca por suprir um vazio existencial. Se pudéssemos resumir toda a história humana em uma única frase, seria ela:
Tudo o que fizemos até aqui, foi para preencher o vazio.
Sorte dos primeiros homens que preenchiam o vazio com atividades mais simples e instintivas. Com o passar do tempo, preencher o vazio parece ter se tornado uma tarefa mais complexa. Enquanto alguns passam o dia dormindo, outros usam o tempo para descobrir como colonizar Marte. Inclusive, preencher o vazio é uma ótima tese para desenvolver um negócio. Parece que a Netflix compreendeu bem isso.
Antes fosse fácil preencher esse vazio. Concomitante a tentativa de nos ocuparmos com experiências concretas, uma parte de nós inunda nossa mente com pensamentos e emoções que costumeiramente questionam qual o verdadeiro objetivo ou propósito da vida. E isso não é coisa de filósofos eruditos ou gente maluca! Basta olhar pro céu por alguns minutos e um sentimento estranho de pequenez já toma conta da nossa consciência. Estamos o tempo todo esbarrando em perguntas sobre nós mesmos que são difíceis de responder, e que às vezes não tem resposta alguma.
Se prestarmos atenção na condição humana, despidos de qualquer vaidade, indubitavelmente seremos abalados por alguma espécie de crise existencial. Carl Sagan, astrônomo americano, nos provoca nessa mesma linha com um trecho de seu livro - Pálido Ponto Azul - em que comenta sobre a primeira foto da terra tirada pela sonda espacial Voyager 1:
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”Olhe para esse ponto. É ali. É a nossa casa. Somos nós. Nesse ponto, todos aqueles que amamos, que conhecemos, de quem ouvimos falar, todos os seres humanos que já existiram, vivem ou viveram as suas vidas. Toda a nossa mistura de alegria e sofrimento, religiões, ideologias e doutrinas econômicas, todos os caçadores e saqueadores, heróis e covardes, criadores e destruidores de civilizações, reis e camponeses, jovens casais apaixonados, pais e mães, todas as crianças, todos os inventores e exploradores, professores de moral, políticos corruptos, superastros, líderes supremos, todos os santos e pecadores da história de nossa espécie, ali - num grão de poeira suspenso em um raio de sol.
A terra é um palco muito pequeno em uma imensa arena cósmica. Pensem nos rios de sangue derramados por todos os generais e imperadores para que, na gloria do triunfo, pudessem ser os senhores momentâneos de uma fração desse ponto. Pensem nas crueldades infinitas cometidas pelos habitantes de um canto desse pixel contra os habitantes de algum outro canto.
[…] em nossa obscuridade, em meio a toda essa imensidão, não há nenhum indício de que, de algum outro mundo, virá socorro que nos salve de nos mesmos.”
Seguramente, refletir sobre a nossa existência enquanto preenchemos o vazio nos leva a certos desconfortos. O principal e mais aterrorizante deles, é a morte. Em algum momento do nosso passado o homem descobriu que não viveria para sempre, mas nunca de fato compreendeu como seria chegar ao próprio fim. O medo da morte é até hoje um grito de socorro que em silêncio ocupa a mente de todas as pessoas.
A incessante busca por conforto diante da certeza da morte, mas da incerteza do que de fato é morrer, ao longos dos séculos, foi uma das principais forças que resultou na criação das inúmeras religiões, assim como colaborou para o avanço da filosofia, por exemplo.
A religião cristã, no que a diz respeito, garante aos seus fiéis que há um céu e que nele encontraremos todos os que amamos após a nossa morte, caso acreditemos em um Deus. “Se você acredita em Deus, ele o salvará”. Isso é reconfortante para as pessoas, não à toa a igreja católica é a maior instituição do planeta.
Por outro lado, na filosofia, encontramos diferentes pontos de vista.
O que é a morte?
“Não quero saber tão cedo” continua sendo a melhor resposta! No entanto, do ponto de vista filosófico ela pode significar muitas coisas. Em minha opinião, que tomei emprestada de Edgar Allan Poe, morrer é tudo que já se foi. ”A morte é tudo que ficou no passado: lembranças da infância, ferias passadas…”.
O objetivo da filosofia não é compreender a morte per se, mas fazer com que ela não seja temida a ponto de impedir uma vida de qualidade. Epicteto disse: ”Exercita-te contra a morte”.
No estoicismo, prega-se o termo Memento Mori, que significa literalmente que devemos sempre lembrar que iremos (e devemos) morrer. Esse conceito deve ser lembrado todos os dias e determinar as nossas escolhas e ações, da mesma forma como fazia Marco Aurelio, o estóico dos estóicos.
A tentativa de “vencer” a morte levou a humanidade a muitos caminhos ao longo da história. Alguns homens fizeram muitos filhos para carregarem o seu nome pela história, outros escreveram livros, empreenderam para deixar um legado, acumularam riquezas e buscaram visibilidade social. Em suma, muitos de nós esperam se salvar do esquecimento fazendo suas narrativas perdurarem por gerações. Todavia, em certa medida, por mais que isso muitas vezes seja um grande propulsor da evolução humana, tudo não passa de vaidade e ego.
Em um mundo sem respostas prontas, prefiro encarar a morte como uma mudança de estado. O conceito de Sympatheia (mais uma vez dos estoicos) é fundamental para entender isso. São aqueles momentos em que percebemos ,diante de atos reflexivos, que fazemos parte de um todo muito maior e incompreensível. A morte, nesse sentido, não seria a morte do ser, e sim o não ser do ser atual. Marco Aurélio em Meditações escreveu:
“Tu existes como parte e desta pereces no todo que te produziu.”
“Enquanto se espera viver, a vida passa”, dizia Sêneca. Nisso que chamamos de vida, seguimos, aprendendo a morrer.