1248, por Captable
1248, por Captable
ūüü£ D√° tempo de mudar?
1
2

ūüü£ D√° tempo de mudar?

Enquanto o venture capital segue caminhos batidos, a inovação passa longe. Mais: o maior IPO do ano e carne feita de insetos.

1248
10 min
1
2
Email image

Edição 72

Enquanto o venture capital segue caminhos batidos, a inovação passa longe.

Mais: o maior IPO do ano e carne feita de insetos.

Inovação sem risco?

Email image

O venture capital j√° foi reverenciado como um dos respons√°veis pela inova√ß√£o e progresso da humanidade ‚Ästmas faz algum tempo que neg√≥cios e modelos disruptivos passam longe das prioridades de investimento dos VCs.

Literalmente traduzido como capital de risco, o venture capital, de fato, impulsionava a inova√ß√£o e financiava novos caminhos para empreendedores que tinham a aud√°cia de ir contra o status quo¬†ou criar caminhos completamente novos ‚Äď e mais curtos ‚Äď que aqueles tra√ßados por empresas tradicionais.

Mas a essência do venture capital mudou.

Os investimentos n√£o s√£o mais de tanto risco, a cartilha dos empreendedores pr√©-aprovados pelos fundos tem mais a ver com a faculdade que o founder frequentou do que com a inova√ß√£o do neg√≥cio e, por √ļltimo, os gestores passaram a mirar retornos certeiros ‚Äď e de prefer√™ncia r√°pidos, em torno dos 5 anos, para satisfazer os investidores e garantir a taxa de performance para os administradores do fundo.

Conforme conta Alexandre Nascimento, empreendedor e pesquisador em Inteligência Artificial pela Singularity University: 

‚ÄúTrata-se de um clube fechado com uma correla√ß√£o alt√≠ssima, onde h√° uma tend√™ncia de um seguir o outro ao inv√©s de apostar em algo que seja realmente diferente. Como a ess√™ncia de inovar √© fazer algo de um jeito diferente, talvez o venture capital esteja se tornando incompat√≠vel com a inova√ß√£o real, infelizmente.‚ÄĚ

Alexandre continua esclarecendo que embora o venture capital tenha sido criado para financiar inova√ß√Ķes a m√©dio e curto prazo, o mais comum hoje √© que busquem por inova√ß√Ķes incrementais. "E, melhor ainda, que sejam daquelas que rapidamente tenham uma confirma√ß√£o, como uma estrat√©gia de ‚Äėde-risking‚Äô‚ÄĚ.

Clubinho restrito e conflito de interesse

Para Alexandre, os investimentos nem sempre s√£o escolhidos pelo m√©rito do neg√≥cio ‚Äď h√°, frequentemente, quest√Ķes de relacionamento envolvidas. N√£o √© incomum que a escolha de uma startup seja motivada pelo acesso do empreendedor a novos investidores qualificados, de rodas exclusivas antes inacess√≠veis ao fundo.

H√° tamb√©m um conflito de interesse por buscar investir em neg√≥cios de retorno r√°pido, em uma busca por mostrar resultado em pouco tempo e levantar novos fundos ‚Ästdeixando de lado ideias realmente disruptivas.

Glaucia Guarcello, sócia-líder de Inovação e Ventures da Deloitte Brasil, esclarece:

‚ÄúO capital de um fundo VC deve ser paciente, j√° que √© preciso um longo prazo para que uma solu√ß√£o disruptiva se torne vi√°vel e escal√°vel. Al√©m disso, o risco de insucesso √© enorme. Por isso, penso que o investidor brasileiro ainda n√£o est√° preparado para o venture em si - que √© experimentar, testar e aceitar a falha ou o erro. Na √Ęnsia de ter um resultado r√°pido, o que tem acontecido √© a eleva√ß√£o do risco de inviabilizar uma inova√ß√£o ou ‚Äėmatar uma boa ideia‚Äô porque ela n√£o trouxe resultados de curto prazo."

Alexandre completa, deixando claro que existem exce√ß√Ķes:¬†

‚ÄúO modelo de venture capital precisa ser redesenhado, pois h√° um enorme conflito de interesses e alinhamento entre os gestores do fundo, os s√≥cios e os empreendedores que realmente buscam inova√ß√Ķes disruptivas. Disruptar uma ind√ļstria pode levar mais de duas d√©cadas [veja a Amazon, por exemplo], e n√£o encontramos esse tipo de apetite em ventures capital para bancar uma aventura dessas‚ÄĚ.

O outro lado da moeda

Esses argumentos fazem sentido quando se pensa do lado do empreendedor inovador que não encontrou financiamento para sua startup, mas, especialmente no Brasil, é importante lembrar que essa classe de ativos compete com juros reais altos em outros tipos de investimento.

Mesmo os EUA, com juros historicamente baixos, está vivendo um período de juros mais elevados e os gestores de fundo de venture capital estão precisando correr atrás de ativos mais seguros e com retornos maiores.

Essa busca por inova√ß√£o pura ou lucro r√°pido n√£o precisa ser mutuamente exclusiva. √Č preciso encontrar o equil√≠brio para apoiar a inova√ß√£o ao mesmo tempo que haja gera√ß√£o de retorno para os investidores.

Invariavelmente, a maioria das pessoas que investe em startups através de fundos de venture capital só irá continuar investindo no longo prazo caso seu portfólio renda minimamente mais que outros investimentos mais seguros.

Essa corrida entre retorno r√°pido versus neg√≥cios que criam o novo s√≥ gerar√° valor para a humanidade se encontrarmos o ponto ideal para alinhar os interesses de investidores e empreendedores ‚Äď gerando valor para a sociedade.


O maior IPO do ano

Email image

O Softbank está rindo à toa. O conglomerado japonês está por trás do maior IPO do ano no mundo.

A Arm foi uma aposta de longo prazo da gestora, a empresa foi fundada em 1990 na forma de uma joint venture entre Acorn, VLSI e Apple e chegou a ser listada na Bolsa de Valores de Londres e na Nasdaq de 1998 a 2016 ‚Äď naquele ano, o Softbank adquiriu a totalidade da empresa por US$ 32 bilh√Ķes.

Em 2020, o SoftBank tentou, mas n√£o conseguiu, vender a Arm para a Nvidia por US$ 40 bilh√Ķes. Parece que foi um bom neg√≥cio.

Com o pre√ßo definido para o IPO que ocorreu ontem, em US$ 51 d√≥lares a a√ß√£o, a Arm foi avaliada inicialmente em cerca de US$ 54,5 bilh√Ķes, de acordo com c√°lculos da Bloomberg News. Pouco tempo ap√≥s a abertura das negocia√ß√Ķes, as a√ß√Ķes chegaram a ser negociadas por US$ 59 d√≥lares, empurrando o valuation da empresa para quase US$ 60 bi.

A jornada até o IPO

Com a tentativa do neg√≥cio com a Nvidia irritando alguns dos maiores clientes da Arm e a subsequente desist√™ncia da transa√ß√£o, a Arm come√ßou a se preparar para abrir o capital na Bolsa de Valores. No in√≠cio, a empresa pretendia ser avaliada entre US$ 60 e 70 bilh√Ķes.

A Arm tinha objetivo de levantar US$ 8 a 10 bilh√Ķes na estreia na bolsa, mas a meta foi reduzida porque o Softbank decidiu comprar os 25% de participa√ß√£o que era detido pelo Vision Fund (fundo de investimento do pr√≥prio Softbank), avaliando a empresa em US$ 64 bilh√Ķes.¬†

Ou seja: o Softbank "perdeu" dinheiro para dar mais valoriza√ß√£o para os investidores do Vision Fund ‚Äď tamb√©m pudera: o fundo sofreu com o inverno das startups e a queda de valuations de companhias como WeWork e Uber.

Em torno de 10% das a√ß√Ķes disponibilizadas para o IPO foram reservadas para investidores que s√£o alguns dos maiores clientes da Arm: Intel, Apple, Nvidia, Samsung e TSMC.

O IPO em quest√£o √© o maior do mundo este ano, j√° que supera a listagem de US$ 4,37 bilh√Ķes feita pela Kenvue, uma subsidi√°ria da Johnson & Johnson voltada √† sa√ļde do consumidor.

Esse movimento pode ser o pontap√© inicial para uma onda de IPOs de dezenas de empresas de tecnologia e de outros segmentos que paralisaram os planos de abertura de capital nos EUA durante o per√≠odo de retra√ß√£o nas cota√ß√Ķes ‚Ästo mais profundo desde a crise financeira de 2009.

Um modelo de neg√≥cio √ļnico

A Arm ganha com seus processadores sendo utilizados pelas maiores companhias do mundo. Mas ela n√£o produz nenhum deles.

O modelo de neg√≥cio da empresa √© baseado no licenciamento de patentes e tecnologia, um conjunto de instru√ß√Ķes, patenteado, que permite que as empresas comprem as instru√ß√Ķes para a base do layout de um chip e personalizem para suas necessidades.

A Apple, por exemplo, começou utilizando processadores próprios, desenvolvidos com base na tecnologia da Arm, em seus iPhones. Expandiu para os iPads, lançou o Apple Watch e, em 2020, começou a transição de todos os seus computadores para processadores baseados na tecnologia.

Praticamente todos os dispositivos móveis no mundo utilizam um processador baseado em Arm. Diversos veículos, eletrodomésticos e outros devices inteligentes, também.

Cada vez que um desses produtos √© vendido com tecnologia da Arm embarcada, a empresa ganha uma porcentagem do valor. Ou seja: √© um neg√≥cio extremamente eficiente, sem f√°bricas ou qualquer demanda de estruturas f√≠sicas gigantes¬†‚Äď e caras ‚Äď para fabrica√ß√£o de chips.

Recentemente, com o crescimento das aplica√ß√Ķes de intelig√™ncia artificial, os processadores baseados em Arm ficaram ainda mais atraentes. Foi com base neles que empresas como a Nvidia desenvolveram alguns dos processadores mais adequados para esse tipo de tarefa ‚Äď e que fizeram seu valor de mercado explodir.

Com tanta relev√Ęncia intr√≠nseca na tecnologia desenvolvida pela Arm n√£o √© de se espantar que esse seja um dos IPOs mais badalados dos √ļltimos tempos. Ningu√©m quer ficar de fora da festa e ver a pr√≥xima Intel crescer sem ter um peda√ßo dela para chamar de seu.

Depois do plant-based, vem aí o insect-based

Email image

A carne de plantas j√° ganhou espa√ßo nas g√īndolas dos mercados e cora√ß√£o dos consumidores que desejam reduzir a depend√™ncia de prote√≠na animal. Agora, uma nova tend√™ncia foi apontada por um levantamento do AgFunder, um dos principais fundos de venture capital do ecossistema agroalimentar global: startups que desenvolvem refei√ß√Ķes preparadas com prote√≠nas de insetos.

Depois de passado o hype das startups de agricultura indoor, que enfrentam o período de "vale da desilusão" no caminho da inovação, analistas agora indicam que boa parte do capital que ia para esses negócios está sendo direcionado para a aquicultura e produção de ingredientes à base de besouros.

Desde o in√≠cio do ano, os dois segmentos ficaram com 60% dos investimentos conquistados no segmento no mundo, totalizando cerca de¬†US$ 370 milh√Ķes dos US$ 626 milh√Ķes levantados em 48 neg√≥cios.

Houve uma guinada total em rela√ß√£o ao comportamento de 2022, quando as startups de agricultura indoor capturavam 60% das transa√ß√Ķes de venture capital. A mudan√ßa √© motivada pela intensifica√ß√£o dos impactos das altera√ß√Ķes clim√°ticas no mundo, aumentando o valor percebido nesses novos sistemas agr√≠colas.

Exemplo dessa nova tend√™ncia, e a maior opera√ß√£o do setor em 2023, foi o aporte de US$ 175 milh√Ķes na Ňłnsect SAS, uma startup francesa. Fundada em Paris em 2011, o neg√≥cio j√° levantou US$ 625 milh√Ķes de mais de 30 investidores. De fundos profissionais como Astanor, Upfront, at√© o ator Robert Downey Jr.

O interesse na startup n√£o √© novidade: em 2020 a Ňłnsect conquistou o maior investimento em uma agtech fora dos EUA at√© hoje ‚Äď US$ 372 milh√Ķes em sua s√©rie C.

Voando como inseto

A startup j√° tem unidades na Fran√ßa, Holanda e Estados Unidos e deve chegar ao M√©xico em breve. Hoje, a Ňłnsect j√° det√©m cerca de 370 patentes que representam metade de todas as inova√ß√Ķes registradas no mundo para produ√ß√£o de prote√≠nas a partir de insetos.

Em especial, o foco da agtech √© o desenvolvimento de alimentos com base no besouro larva-da-farinha. No in√≠cio, o objetivo era produzir ra√ß√£o animal, j√° que a comida √† base de insetos √© considerada uma forma de alimentar os rebanhos e cria√ß√Ķes de aves e peixes de forma mais sustent√°vel do que a tradicional farinha de peixe.

Para cada tonelada de prote√≠na Ňłnsect, a empresa economiza cinco toneladas de animais aqu√°ticos.

Com os aportes recebidos nos √ļltimos anos e os avan√ßos cient√≠ficos, a startup mudou sua estrat√©gia e hoje mira tamb√©m na alimenta√ß√£o humana e em ra√ß√Ķes para pets.¬†

Um dos exemplos desse avanço é o sistema Axiom YNS­­_Mol1, o primeiro chip de genotipagem desenvolvido pela startup. A ferramenta permite a seleção das linhagens de larvas do inseto mais adequadas à alimentação animal e humana.

Em ambos os casos, depois de processados, os besouros se transformam em um p√≥ rico em prote√≠nas, minerais, fibras e √°cidos graxos. A equipe de P&D da startup j√° apresentou, em car√°ter experimental, um hamb√ļrguer √† base de besouro ‚Äď um exemplo de onde a inova√ß√£o e criatividade humana pode chegar.

Sustentabilidade em foco

A produ√ß√£o da prote√≠na da larva-da-farinha usa 90% menos terra e 50% menos √°gua do que a fabrica√ß√£o da mesma quantidade do nutriente de origem animal ‚Ästtudo isso alcan√ßando um n√≠vel 60% reduzido de colesterol total e t√£o nutritiva quanto a prote√≠na do soro de leite.

O circuito de produção é fechado e funciona em loop. A produção raramente exige a introdução de novos insetos. Com 95% da larva-da-farinha sendo processada para obtenção do produto final e 5% destinada à reprodução.

Vale destacar que o besouro em questão se tornou, em janeiro de 2021, o primeiro inseto autorizado para consumo humano pela Autoridade Europeia para Segurança Alimentar. O pó da larva é usado como ingrediente no preparo de bolos, biscoitos, pães e macarrão.

Agora, o desafio deve ser fazer com que consumidores encarem um prato de macarr√£o, um pacote de biscoito ou um bolo feito de larvas. J√° d√° para saber que pelo menos nutritivo e sustent√°vel o produto deve ser.

Compartilhar conte√ļdo

Informativa, inteligente, exponencial.

Selecionamos as principais notícias do mercado. Trazemos editoriais, análises, entrevistas e materiais educativos. Fazemos você embarcar nesse ecossistema que pode te trazer retornos inimagináveis.

O nosso e-mail chega na sua caixa de entrada toda sexta-feira, às 12h48.