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A Música no Período Medieval e a Construção da Harmonia

By Gesiel

Last update at 06/03/20214 Min.

A harmonia como conhecemos hoje, não foi inventada por alguém, mas sim construída por vários “operários” no decorrer da história, e esse processo não é algo fácil de explicar. Para isso vamos recorrer a uma analogia da vida humana: a formação da família.
Como exercício mental, imaginemos um homem solteiro que anda por onde quer, sem ninguém para lhe segurar ou dizer “faça isso ou faça aquilo”. Mas, como o homem não foi feito para viver só, conheceu uma garota e com ela se casou. No começo, aonde ele ia, ela ia junto; ia para a direita, ela ia junto; subia, ela idem; descia, ela descia também; parava para descansar, ela fazia o mesmo. Mas certo dia, isso deixou de ser uma constante. A mulher criou independência e começou a andar mais rápido que seu companheiro; a ir por caminhos que não eram exatamente o mesmo de seu marido. E isso foi bom. Como se não bastasse, a alegria do casal só aumentou com a chegada do primeiro filho e, tempos mais tarde, se completou com a chegada de mais um rebento.
Deste modo também se formou a harmonia, porém, através dos séculos.
Os primeiros relatos da música se referem a um canto litúrgico monofônico que perdurou inalterado por vários séculos, algo que foi chamado de “cantochão”, sendo posteriormente denominado também “canto gregoriano”, possivelmente referente ao papa Gregório I, que foi quem determinou a documentação dessas peças litúrgicas.
Com registros a partir do século IX, surge uma outra voz ao Cantochão, sendo cantada em movimento paralelo, com intervalos entre as vozes de uma quarta, uma quinta ou uma oitava. Ao acréscimo de uma voz ao cantochão deu-se o nome genérico de “Organum”, e a este modelo específico de condução de voz espelhada, o nome de “Organum Paralelo”.
Mas quando havia um intervalo de quarta aumentada, ou de quinta diminuta, criava-se um som que não agradava aos ouvintes e ao clero: o trítono. Algo que contribuiu para um novo estilo de composição: o “organum livre”.
Pelos séculos X e XI o Organum ganhou certa liberdade em relação ao movimento. Surge o que conhecemos hoje como movimentos relativos: direto, oblíquo e contrário.
No movimento direto a voz ainda tem semelhanças com o movimento paralelo, porém, enquanto este guarda a relação de intervalos e direção do movimento das notas, aquele fixa apenas a direção do movimento e não o intervalo entre as notas. 
No movimento oblíquo, enquanto não há movimento em uma das vozes, a outra movimenta-se em direção ascendente ou descendente.
E no movimento contrário, como o próprio nome diz, enquanto uma voz está em movimento ascendente a outra está em movimento descente.
No século XII, Leonin, o mestre, criou seis modos rítmicos que seriam a base da polifonia. Ele não só acrescentou uma voz com liberdade de movimentos, como também acrescentou melismas a esta voz, ou seja, o que até agora era a regra, uma nota para cada sílaba, deixa de ser o padrão, podendo ser cantada várias notas com uma única sílaba.
Surge assim o “Organum Melismático”, mas vale ressaltar que os melismas ficavam apenas com a voz organal, o cantochão seguia da mesma forma.
Leonin dividiu ainda o organum em duas seções: descant e clausulae. A primeira estritamente como um organum melismático original, uma melodia de cantochão acrescida de uma voz melismática. À segunda seção deu uma liberdade maior na voz cantochão criando um certo ritmo ao organum. É aqui que começa a aparecer o contraponto. Perotin, um aluno aplicado de Leonin, ousou na criação musical, superando em muito seu mestre. Aplicou com perfeição os modos rítmicos de Leonin ao escrever diversos organa, plural de organum, e peças apenas como descant ou clausulae.
De acordo com o entendimento contemporâneo, se faz necessário a concordância de vários sons, ou acordes, para que se obtenha o que conhecemos como harmonia. Concorda-se também que, um acorde é a execução simultânea de pelo menos três notas musicais. Assim sendo, foi com Perotin que surgiu o pensamento de harmonia. Usando o método de Leonin, ele acrescentou uma terceira voz ao organum, e como se não bastasse lançou uma quarta voz a obra. 
Até este momento não havia uma liberdade nas sílabas cantadas, sendo sempre as mesmas utilizadas na melodia cantochão que fora escolhida. Mas pelo século XIII a voz mais aguda começou a receber palavras diferentes do texto do cantochão, e como este era a base sobre a qual se construiria as outras vozes, era necessário que fosse mantido não só o canto como também o texto, por este motivo passou-se a denominar esta voz como “Tenor”.
O nome que se destaca neste novo processo de composição é Guillaume de Machaut, e é também um dos primeiros nomes da música que se tem um registro histórico fiável.
Sobre este assunto, aprenda um pouco mais aqui mesmo no Blog do Gesiel:
REFERÊNCIAS:
BENNETT, Roy. Uma breve história da música. Tradução: Maria Teresa Resende Costa. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Edição: 1986.