003: O que é que eu vou fazer com essa tal liberdade?
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003: O que é que eu vou fazer com essa tal liberdade?

Em que retomo a newsletter, falo da liberdade criativa de quem não não tem sacis a quem prestar contas, e de que aceitar o deserto nos livra de muita ansiedade.

Ricardo de Carvalho
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Alfredo Norfini - Saci na Cavalhada

Um amigo das redes sociais, o Matheus Redig, escreveu algo acerca da situação favorável que é a de ser um escritor iniciante, situação que provê "a gostosa sensação de liberdade ao perceber que ninguém liga pro que ele escreve. A solidão é a melhor das oficinas de escrita criativa." Sou um escritor iniciante também, essa visão me anima, daí fico a pensar que a tal sensação pode ser experimentada por todo mundo que publica mesmo que há décadas, o que pode liberta-lo de muita ansiedade provocada pelo silêncio ao redor.

Veja: ninguém liga para quase nada do que se escreve em ficção ou poesia aqui no Brasil, e talvez muitos autores estejam publicando tantos livros ruins porque escrevem para um censor internalizado que nem tem essa força toda. Esse censor é um monstrinho magrelo e perneta, um saci desnutrido cujos ataques condensam a pressão rala advinda de um mercado sem imaginação, de crítica literária inexistente, do desejo por premiações oficiais que já há um tempinho são razões de demérito para quem os ganha.

Claro que o dinheirinho dos prêmios jabutis da vida são bem-vindos, assim como a publicidade decorrente em jornais que nem têm mais cadernos culturais, que não irão lhes dar leitores novos. Mas qualquer ajuda no deserto é preciosa, eu sei, e essas notícias ajudarão a rankear seu nome no Google e assim enriquecer o portfólio a ser enviado para trabalhos próprios de mão-de-obra intelectual que, todavia, não exigem o exercício livre da criatividade.

Até existem fenômenos como o de um Torto Arado, que chamou atenção para fora de uma bolha universitária de hábitos burocráticos de leitura. E há essas figuras midiáticas, os Karnal da vida, que têm espaços até na tv, embora ninguém discuta suas ideias (se é que essas ideias existem). São as tais exceções que provam um argumento e, no primeiro caso, há uma confluência de fatores que conduziram a um contágio mimético incomum, moda que dificilmente pode ser reproduzida.

Queria retomar a newsletter com esse assunto porque cheguei a criar um plano para profissionalizar este espaço. Fui incentivado por experimentos americanos de autores que vêm conseguindo sustentar um trabalho criativo de valor através dessa forma de publicação. Estudei marketing digital, fiz curso de empreendedorismo em escrita. Montei um editorial de um ano inteiro a partir de pesquisa de público, dosando assuntos de interesse mais geral a partir de temas "cata-corno" com abordagens vulgares. Reservei apenas uma vez por mês para falar do que realmente me importa, do jeito que acho que se deve abordar o problema, único momento em que iria ignorar aquele saci safado.

Acabei desistindo.

Alguns dos leitores chegaram a receber o prefácio de um experimento literário meio maluco, que sairia em e-book a ser atualizado algumas vezes ao longo desse ano. Ao leitor pagante, prometia-se material exclusivo. Por motivo que espero contar numa postagem ainda neste mês, desisti do projeto não só por motivos financeiros, mas por uma mudança de foco em meus interesses. O projeto iria me levar a gastar tempo demais da vida observando o abismo, e, como diria Nietzsche, o que o abismo mais quer é ver a gente se debruçando em suas beiradas pra dar aquele abraço de tamanduá tão gostosinho. Outro dia eu conto mais.

Depois de um certo cálculo, de semanas tentando vislumbrar como aproveitar as possibilidades de cursos (sou professor de formação que desistiu da vida de sala de aula e ainda penso numa modalidade de magistério independente da academia) e outros tipos de infoprodutos, preferi não arriscar. Pelo menos por enquanto.

Porém, estou escrevendo um romance, em breve iniciarei algumas parceiras com os amigos do Diário Intelectual, e ressuscito esse espaço com o objetivo de desenvolver um trabalho de crítica de cultura já não digo profissional, porém com seriedade.

Minha visão de cultura me impede que eu lamente pela falta de um público geral, e também é por isso que eu acho tão animadora aquela visão do Matheus. Veja, não falo de meu público, não sou autor publicado, falo da falta de esperança de encontrar um grande público no momento em que eu lançar meu livro na praça, uma vez que não existe praça -- existe o caos. Não vejo porque ficar chorando como vi chorando dois escritores publicados, figuras até de talento e até famosos no meio paraolavético, alimentando ressentimento porque ninguém dá valor a eles. Um até repetiu a lamúria do Pound de que o governo deveria sustentar seus poetas. A gente sabe que número de leitores foi sempre exíguo por aqui, não é um problema de hoje, embora estejamos num buraco bem mais fundo e largo e de ecos mais tenebrosos.

Então, se é para conquistar leitores, que não seja pela culpa, que não seja pelo ressentimento, que não seja por falsas promessas de entrada numa camarilha de gente se congratulando por participar de uma elite do bom gosto (povo que mascara o ódio que tem de si com o discurso de que todo mundo no Brasil, além de seus vinte leitores, é burro), ou por "consciência social", ou por qualquer outro apelo emocional negativo.

Eu sempre penso em Olavo, que conquistou seu lugar, criou seu sistema, e penso levando em conta o que disse o Ronald Robson, que repetir sua trajetória de sucesso não é uma boa estratégia. Olavo não é um fenômeno replicável a não ser como farsa, como simulacro, como fórmula que necessitaria de constante impostura para manter-se chamativa. No entanto, se ele mostrou que foi possível encontrar leitores, cabe-nos ao menos dar o sangue para tal, usar de inteligência para atingir outras almas amigas, que possam encontrar um certo calor naquilo que nós nós dispomos a oferecer. Não chorar pelo sistema vigente, sim criar o próprio sistema em meio a cântico e dança.

Deixo para falar de meus livros, projetos de cursos e outras intervenções culturais em breve. Já disse, desisti de um editorial que pudesse me trazer grande público, mas persisto em manter periodicamente a newsletter, tratando de assuntos que julgo tenham importância. Por exemplo, um amigo no Twitter perguntou-me se eu publicaria minhas críticas à Jornada do Herói, e eu lhe mostrei uma lista dos próximos assuntos que serão abordados aqui:

  1. Parmênides e a Grande Micareta de Junho de 2013
  2. Agricultura celeste, tempo qualitativo e A Baleia de Ângelo Venosa
  3. João Gilberto e concentração em artes
  4. Uma experiência em marketing digital
  5. Como a Jornada do Herói esteriliza tudo o que toca
  6. Jodorowski, o Caminho do Artista e Deus como fonte de criatividade

Meu desafio é publicar um desses textos a cada sábado. O modelo do Pingback permite assinaturas pagas e,  por enquanto, não quero prometer material exclusivo. A partir de um certo número de assinaturas, poderei dar mais atenção para este experimento criativo - o objetivo é que um dia a minha escrita se torne a minha principal fonte de renda, e irei me esforçar para entregar arte e pensamento de qualidade.

Há alguns pacotes de assinatura no link abaixo, para quem desejar incentivar o meu trabalho, assim como formas de doação mais livre. Estendo o meu chapéu:

No mais, vamos em frente, sem temor nem esperança, mas pelo gosto da boa conversa.