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Meu Caro Amigo

By Eduardo Barão

Last update at 06/10/20212 Min.

Desde que me mudei para Nova Iorque, uma das frases que mais ouvi de pessoas próximas e nem tão próximas assim foi:
- Separa um canto pra mim na sua casa que vou te visitar, heim.
Dá para entender, afinal economizar uma grana nos caros hotéis da cidade e ainda rever uma pessoa querida é um pacote que não se compra em nenhuma operadora de turismo.
Só que aí começa o problema para quem está desse outro lado do hemisfério.
Aquele cômodo do apartamento que serviria para hospedar uma visita, mesmo num sofá-cama, poderia ser meu escritório. Ou mesmo uma sala de estudos para as crianças. Ou ainda colocar o vídeo-game, enquanto rola um filme ou uma série na sala.
O metro quadrado do aluguel de um apartamento na cidade continua sendo um dos mais caros do mundo, apesar do preço ter caído um pouco durante a pandemia. Muita gente decidiu sair de Manhattan e ir para o interior do País depois que o local virou epicentro da Covid no mundo. Felizmente hoje o cenário é outro.
Pelo sim, pelo não, aquele quarto ficou ali por mais de um ano esperando a visita, enquanto nós quatro ocupávamos cada milímetro dos outros cantos da casa.
Enquanto isso, fui colecionando roteiros de passeios, afinal eu moro na Big Apple.
Será que quem vier já conhece os pontos turísiticos tradicionais? Vai querer ir na Estátua da Liberdade? Dar uma volta no Central Park? Ou ver Nova Iorque lá do alto no Empire State Building? Ou ir para um outlet, comprar sei lá o que? 
Vou fazer melhor, algo mais exclusivo; mostrar aquele restaurante badalado que acabou de reabrir aqui perto. Tem também a Ilha flutuante que foi recém inaugurada no Rio Hudson. Ou os jogos da NBA no Barclay Center, a casa do Brooklyn Nets.
E assim foi, com todas as restrições de entrada no país, passou mais de um ano na expectativa de receber bem um amigo e matar um pouco da saudade do Brasil.
Até que finalmente o telefone toca...
-Fala Barão, beleza?
-Tudo em paz, o que manda?
- Lembra que tinha pedido para guardar um cantinho pra mim na sua casa?
-Claro, tá aqui guardado.
-Ótimo, vim fazer uma reportagem aqui no México e pensei em fazer um passeio aí em Nova Iorque.
-Sensacional! Pode vir. Mas me fala; você vai querer ir em algum lugar em especial, conhecer alguma novidade?
-Então, Barão, vou só tomar a vacina do coronavírus mesmo e vou embora. Deixa essa história de shows da Brodway pra próxima.
Desliguei o telefone, respirei fundo e entendi a urgência. As doses contra o coronavírus hoje valem muito mais do que um roteiro ao som de Frank Sinatra.
Sendo assim, entrei no site de uma loja de móveis e comprei a maior poltrona que achei. Agora quem vier me visitar vai ter de procurar um hotel.