A VISITA DE VITOR
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A VISITA DE VITOR

Uiliam da Silva Grizafis
6 min
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Gerard acordou peto do meio-dia, havia dormido ali mesmo, na grama, a manhã não estava tão fria, estava fresca. A cidade estava tumultuada, a eleição estava por chegar. O nosso herói se levanta e toma um banho quente. Após tomar uma xícara de café aparece Vitor e os dois começam a conversar. Gerard lhe contou tudo o que havia acontecido, Vitor ouviu tudo com os olhos arregalados.

- Se Deus quiser, meu amigo, voltarei a vê-la – disse-lhe Gerard.

- Eu não posso dizer o mesmo, não acredito nessas coisas. Você acredita no amor? Parece que sim!

- Eu acredito e acredito que foi Deus quem o criou.

- Se Deus criou o amor, então por que muitos sofrem por amor? Eu acho que se Deus existisse não haveria motivos para não acreditar nEle.

- Você e seus papos de ateu.

- A questão não é ser ateu, a questão é que um conhecido meu se suicidou ontem à noite, acho que o coitado estava sofrendo muito para fazê-lo. Em quanto o pastor e o padre ficam a discutir teologia há pessoas que se matam. Eu mesmo pensei em fazê-lo quando estava na prisão, não o fiz por medo.

- Medo de quê? Seria medo da outra vida?

- Não, meu caro, não acredito na outra vida, mas o simples ato pressupõe angústia, mesmo que você queira o suicídio, sempre haverá uma angústia. Mas aquele que o faz não vence a angústia, nem o medo, o faz porque já foi superado por esta vida.

- De qual medo você fala?

- Aquele que se fala sobre ter uma pedra muito grande, do tamanho de uma casa, sobre sua cabeça, você sabe que, se essa pedra cair em você não sentirá dor, mesmo assim, sentirá o medo da dor. Já foi dito, na literatura Russa: “A vida é dor, a vida é medo, e o homem é um infeliz. Hoje é tudo dor e medo. Hoje o homem ama a vida porque ama a dor e o medo”.

- O que você quer dizer com isso?

- O mesmo autor falou que haverá um homem, quer dizer, um novo homem, feliz e altivo. Aquele para quem for indiferente viver ou não viver será um novo homem.

- Lembrei, quem vencer a dor e o medo, esse mesmo será deus.

- Na mosca, meu caro. Você também leu Dostoiévski!

- Não importa, ainda continuo a pensar que Deus existe.

- Isso é o de menos, meu caro. A questão de ser ateu não é militar ou convencer de que não há Deus, mas sim, tornar-se deus.

- Eu não acredito que não haja alguém por trás de tudo isso que gira. Há um Ser, há uma Causa. Tudo gira, há um movimento para tudo, desde nossa respiração até o movimento das galáxias, e quem está por trás de todo esse movimento? Uma analogia que posso fazer-lhe, para que me entendas, é sobre a fogueira na praia, se há uma fogueira na praia e perto dela houver uma pedra, se alguém tocar nessa pedra, notará que estará quente. E qual é a causa de a pedra estar quente?

- Certamente a fogueira.

- Exato, por trás de todo esse movimento há uma causa, uma causa imóvel, essa causa é divina. Deus criou o tempo fora do tempo, quando não havia movimento, e esse divino e imóvel que tentamos limitar ao nosso intelecto é, para mim, o próprio Deus.

- Por que então somos tristes, meu caro amigo?

- O que isso tem a ver? Mas posso ter minha melancolia, no entanto, não deixo de acreditar nisso. Esse mesmo Deus permitiu que eu conhecesse uma mulher, mesmo que ela já tenha ido embora, continuo a acreditar que há um motivo para viver e ser feliz.

- Você se apaixonou mesmo por essa mulher?

- Eu acho que sim – Gerard não se aguentou e soltou uma gargalhada, - acho que estou apaixonado, mas não sei se voltarei a vê-la. Mas, segue a vida, não podemos parar.

- Bom, eu prefiro ser autônomo e não acreditar nessas ladainhas. Ontem mesmo vi a Camila e sei que você descobriu onde ela trabalha. Ela tentou me convencer de várias coisas, mas a deixei de lado. Muito em breve, meu caro, você não me verá mais, sairei desta cidade para conhecer o mundo.

De súbito, Vitor se levantou e apertou fortemente a mão de seu amigo. Enquanto saía, Gerard o viu caminhar pela estrada, sem saber que nunca mais o veria. Foi outra despedida que Gerard teve em menos de vinte quatro horas.

Após a despedida, Gerard, abre uma garrafa de café, liga a rádio e se senta para tentar refletir. O locutor não parava de falar de política e Gerard descobre que o partido progressista havia entrado com uma ação judicial para que os jornais da cidade não divulgassem algumas atrocidades feitas pelo próprio partido. A cidade estava um caos; pessoas pelas ruas manifestavam sem parar contra a tal ação. Gerard se levanta, apaga a rádio e caminha até a igreja, sim, caro leitor, aquela velha igreja que estava no princípio deste livro. Gerard entra e ao ver que não havia ninguém decide sentar-se e lembrar de quando entrou pela primeira vez naquele lugar. Passou-lhe um filme em sua cabeça de tudo o que aconteceu em sua vida até chegar aonde estava. De repente, sem que o rapaz percebesse o pastor entra, pôs-se ao seu lado e começa a conversar. Não quero deter-me no que foi tratado nessa conversa, o que posso dizer é que o pastor foi duramente questionado por Gerard sobre a função da igreja na terra, o mesmo pastor que viu o menino crescer, agora estava sendo confrontado por ele. Gerard não deixou de falar da aventura que teve em Nova Veneza e lhe pergunta ao pastor se ele acreditava no amor e se talvez fosse possível voltar a ver Mari. Tampouco deixou de perguntar-lhe por que os cristãos, nos séculos passados se mataram tanto, até mesmo os protestantes. A conversa durou por aproximadamente uma hora, Gerard não ficou satisfeito e decidiu ir trabalhar, talvez esquecesse um pouco seus dilemas, e assim foi.